Uma vez por ano decorrem as celebrações do dia da liberdade na galeria iconográfica Pinote. Participa-se em pé, ligado ao dispositivo virtual da Mindicon, e segurando na mão um objeto a que sejamos apegados. Por volta das 15 horas cai a noite. Somos colocados na penumbra até que os olhos se adaptam à luz do firmamento e as coisas em volta ganham uma textura de lã, como se a escuridão emprestasse uma macieza às formas. Damos então por nós junto a árvores, talvez meia dúzia delas, amontadas ao fundo de uma ladeira onde somos deixados prolongadamente sem que nada aconteça. Quando, devido ao tédio, o corpo começa a ser tomado de um formigueiro, os restantes sentidos são então ligados, e chega-nos o cheiro a humidade, do que poderá ser um insonoro regato, ao que são adicionados arrepios nas omoplatas que nos obrigam a um ou dois espirros. Ficamos a vibrar pela expulsão do ar enquanto a ressonância do som permanece como um borrifar de água sobre a paisagem invisível. Sentimos então os pés a moverem-se monte acima, tropeçando em arbustos e pedras, fletindo os joelhos de encontro ao chão, como se a cegueira do andar nos colocasse um peso nas costas. É nesse desconforto que nos começa a invadir uma sensação de medo, que na escuridão nos faz apressar o passo, subindo, deixando para trás a sombra das árvores, enquanto se vai impondo à nossa frente uma forma retangular, de superfície lisa e aspeto intransponível. É então que sentimos a dor na mão que não larga o objeto. É por altura do pulso. E estamos imobilizados em frente à grande parede, pressentido o amplo espaço da noite pelas costas. Quando a dor se torna insuportável, num pestanejar de olhos, percebemos que a parede é afinal de um casebre, por onde se abre uma porta meio derrocada. Enfiamo-nos por esse buraco e encostamo-nos a umas traves de madeira carcomida. Neste canto, cai um silêncio total e assustamo-nos, pois já não conseguimos ouvir a própria respiração. A única ligação com o exterior é este objeto, que levamos ao peito, procurando ouvi-lo e vê-lo pelo olfato. Cheira a nada. Apertamos as mãos e as unhas vão de encontro à carne das palmas. Essa é a única parte que se sente do corpo. Desligam-nos a mente e somos apenas aquela mão que abre e fecha como patas de aranha recém decepada. Anda pelo casebre, enterrando-se no pó amarelo da madeira e rebolando na terra batida do chão. Nesse momento acende-se a luz numa divisão quadrada com uma pequena mesa no centro e duas cadeiras frente a frente. Estamos sentados numa delas com a mão imobilizada sobre o tampo e corpo direito na cadeira. Na outra está o ícone do Hilário nu à máquina de escrever e, mais ao fundo, de costas para nós, o ícone do Hilário com o fato largueirão olhando por uma pequena janela. Por detrás, o ícone do Mouco começa-se a desfazer enrolando-nos em papel de jornal atado com fitas de filme a preto e branco. É quando os olhos nos saem órbitas afora que fixamos a minúscula caixa castanha de mogno avermelhado com o fecho dourado em reboliço que se eleva abrindo a tampa.
In 25 de abril sempre (2019)
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