sexta-feira, 19 de abril de 2019

A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante

Entre os 3 Pinotes e os 2 Hilários acompanhados de 1 Mouco, jaz no chão da galeria o ícone cerebral, A morte do Sr. Capitão Armando Simões, segundo os livros de cavalaria andante. Tendo sido um homem esguio e seco, trajado para a guerra como o padre para o celibato, não deixou descendência digna desse nome, uma vez que como tal não se pode considerar um mestiço num musseque de Luanda, se é que o há, como também não são merecedores dessa classificação os filhos de um padre, se é que os há, sendo pois dois seres que de igual se alimentam do imaginário, como se a vida fosse apenas um sonho, incapazes de deixar uma pegada física, pelo que, na ausência de qualquer prova de sucessão material, nada melhor do que as histórias da antiga cavalaria andante para produzir o seu ícone. Suspeita-se mesmo que possa ser obra do software da Mindicon, responsável pela gestão social da galeria, que, como um curador, decide acerca do inter-relacionamento entre os ícones, com vista a pronunciar o seu impacto, não sendo, nesse caso, A morte do Sr. Capitão Simões, um verdadeiro ícone, aproximando-se mais de uma parede, ou um projetor, no que são os elementos de uma galeria como vós a conheceis. Sendo sintético, difere também do Pinote por josedigitalgalvao, pela despretensão de ser coisa alguma, a não ser uma súmula. Traça, portanto, o corpo estendido, violáceo do garrote, uma linha imaginária que separa os dois bandos que se enfrentam de razões bem físicas, todas elas feitas da carne e das suas emoções subjacentes. Colocado ao nível do chão, é impercetível para quem entra na galeria, preso no olhar pelos ícones pendentes e pelas suas subtis interações. Mas passado um pouco, sente-se uma tensão, como se algo impedisse os dois grupos de se lançarem um contra o outro, e ao mesmo tempo não os deixa voltar costas e debandar. Diz-se que os cavaleiros andantes morrem da mesma febre que os tomou em vida, sendo apenas fatal a infelicidade de esta agora os apanhar na cama, incapazes de galgar a um cavalo e partir à aventura, e parece ser evidente esse efeito neste militar impecavelmente fardado, há anos confinado ao seu gabinete e ao despacho. Requerimentos, requerimentos, parece ter estampado no rosto vítima da asfixia, reproduzido em três cópias a papel químico, encaracoladas aos cabelos como os canudos de um judeu ortodoxo. Como pode um homem vocacionado para a guerra sobreviver a um ataque de papelada, ainda que química? Pode mesmo ser fatal trazer um homem à razão? Foi com falinhas mansas que o tiraram do Ultramar para o encerrar naquele vilarejo de província, como símbolo, é verdade, mas administrador de coisa nenhuma. Parece ter saudades da Luanda onde cavalgava o seu cavalo branco, a quem deu um tiro depois de partir uma perna numa noite de cacimba, e cuja reprodução, a pau pintado, se encontra agora entre as pernas estendidas do Capitão Simões, com a cabeça espalmada tombada, ainda que embelezada por duas tranças de fios de lã branca que não conseguem esconder o orifício deixado pela bala. Quem matou o Capitão Simões, pergunta-se ao longo do corpo do animal.

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