domingo, 31 de março de 2019

Pinote segundo Dr. José Galvão, por josedigitalgalvao

É incerta qual a proveniência do ícone Pinote segundo Dr. José Galvão, por josedigitalgalvao. Certo é que à época se fizeram experiências de construção de personagens sintéticos por processamento de toda a informação acerca de uma pessoa já falecida, onde não poucas vezes se incluía também a inferência de qual o seu ADN, a partir do dos seus descendentes, senão mesmo, embora considerado eticamente reprovável, por exumação dos seus corpos. Na realidade, chegaram-se a gerar personagens para cada um dos dias da sua existência, dado que no conjunto da informação se incluía o ambiente que o envolvia, desde os dados meteorológicos disponíveis sobre os locais onde se sabia ter estado, até às notícias de jornal que teria presumivelmente lido. Podiam estas sequências de personagens ser depois folheadas como as páginas de um livro, onde por entre a rapidez da passagem das arestas se obtinha uma impressão de vida. Crê-se que houve quem começasse a gerar iconografias cerebrais a partir destes seres de aparência real. Muitas foram as dúvidas suscitadas. Que acrescento poderia produzir um objeto digital na produção de um outro objeto digital? Qual a mais valia de um Pinote segundo Dr. José Galvão, por um qualquer josedigitalgalvao, sobre um Pinote por joaquimdigitalpinote? Argumentavam naquela época os defensores da base biológica, o que em síntese se pode resumir à questão, o que é a vida sem a putrefação? Mas tais ícones se fizeram, e não se tornaram menos merecedores de fazer parte da galeria iconográfica Pinote, do que um grafíti de uma galeria do final do século XX. É uma peça em bronze, colocada à frente aos dois outros Pinotes, obras de um forte pendor emocional, mas que podem ser cinicamente consideradas como obras de um Hilário, concebidas para o Bem da Nação, já que neste mundo não há causa que não seja efeito. Claramente, do convencimento deste saber surtiu este Pinote, em que o único ardor foi o da fundição, que agora arrefeceu em tons de verde frio. Pinote segundo Dr. José Galvão, por josedigitalgalvao, é um ser disforme, produzido a partir de fora e para fora. Está ali porque lá estão também os dois Hilários, obras tão ricas de emoção como os Pinotes da mãe e da filha. Este Pinote é como um fantasma preenchido a zeros e uns, de um verde claro escorrido sobre o bronze mais escuro, como se a partir do passado se pudesse gravar um firmware capaz da insónia. Se por duas vezes para ele se olhar, não se capta a mesma imagem, e mesmo esta é uma impressão da qual se dúvida, já que nem sequer se consegue encontrar na memória a primeira delas para comparar com a segunda. O que contrabalança com a imponência que prende o olhar. Sim, a presença desta figura, que não se deixa perceber como um todo, é avassaladora, está ali para negar a humanidade aos ícones Hilário, para romper o ciclo, da comiseração do fim de um homem que apenas cumpriu o seu dever, de um deles, e da exaltação do macaco vestido, do outro. E se é verdade que não dá descanso aos dois Hilários, quando Joaninha, pela primeira vez o viu, sussurrou, este não é o meu pai.

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