terça-feira, 5 de março de 2019

Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917

O ícone cerebral Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917, surgido alguns anos mais tarde, através de uma funcionalidade que apenas ficou disponível a partir da versão 5.3 do software da Mindicon, a qual permite localizar no cérebro, nas zonas chamadas de sedimentares, informação que, uma vez armazenada, permanece relativamente imutável, a não ser pela pressão provocada pelo acondicionamento de outros dados, por camadas, ainda que interpenetrando-se, mas nunca perdendo a sua identidade, e que apenas se costuma manifestar explicitamente como memórias longínquas, mas já nas fases adiantadas da vida, em que damos pelas pessoas mais próximas a relatarem factos de uma existência que já não é a nossa, e, informação esta, que alguns cientistas acreditam ser fundamental no comportamento afetivo, irrefletido, para não usar a palavra irracional, que já há algum tempo foi liberta de significado, e agora costuma apenas ser usada no sentido de ignorância. Esta funcionalidade, presente na versão 5.3, chamada de inverted life periscope, permite capturar, com alguma pureza, das impressões mais primordiais do ser, numa fase eminentemente recetiva, em que no cérebro as capacidades de armazenamento se impõem, de sobremaneira, às de processamento. Mas o verdadeiro sucesso desta nova funcionalidade desenvolvida pela Mindicon, para além de um complexo e muito fino mecanismo de localização e agrupamento da informação cerebral, resulta do desenvolvimento de um sistema de filtros encadeados, que dinamicamente se compõem e recompõem, permitindo ao autor do ícone cerebral a seleção e eliminação de informação, usando apenas uma técnica de foco cerebral, também desenvolvida pelos engenheiros da Mindicon, que não necessita de treino exaustivo, e que pode de facto ser completamente dominada nos primeiros 30 minutos de uma sessão de iconografia cerebral. Desta forma, o autor pode-se focar em impressões que residem no seu cérebro e que, devido a se encontrarem nas zonas sedimentares, se pode dizer, quase não lhe pertencem. Foi assim que foi gerado o ícone Pinote segundo Deolinda, por joaninha1917, que procurou em si o que de sua mãe Deolinda havia sobre seu pai Pinote. O ícone é tridimensional, feito de uma caixa de madeira, de um castanho avermelhado forte, mogno, todo ele liso, ainda que com as marcas dos fortes veios da madeira nobre, distinta, da árvore de tronco grosso que com um orgulho reto se alonga em direção ao sol. A primeira impressão, dada a sua dimensão, quase uma miniatura, daquelas onde com afeição se guardam recordações do que foi fisicamente grande, e que agora se conserva na memória como a mais delicada das matérias humanas. Uma caixa de senhora, portanto, toda encastrada, sem um prego, nem uma marca de intrusão, como se tivesse sido escavada da própria árvore, não fosse o cheiro a cânfora nos dar a certeza de ser também feita de outras madeiras. Cheiro que indiscutivelmente escapa do seu interior por uma ranhura irregular, selada por um pequeno fecho dourado que se debruça perpendicularmente.

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