Dele sabe-se muito pouco, e mesmo a sua existência levantou dúvidas. Existiu realmente, ou é obra da imaginação do seu criador? O ícone foi gerado pela versão 1.3 do software da empresa Mindicon, numa altura em que ainda não tinha obtido a certificação de veracidade, que apenas veio a ocorrer aquando do lançamento da 3.0. De facto, nem sequer nessa altura ainda se tinha manifestado o impacto social provocado pela irrealidade dos ícones cerebrais, fenómeno que veio ser conhecido como disrupted reality. Assim, muito se discutiu, inicialmente, se seria um produto da imaginação da sua presumida filha, que o suscitou enquanto ligada ao software iconográfico com o avatar joaninha1917. Não era de todo infrequente os filhos de pais desconhecidos procurarem usar a iconografia cerebral para produzirem imagens de progenitores com quem nunca privaram ou de quem nem sequer sabiam o nome, levados por uma crença, nunca confirmada, que no cérebro se podiam formar reminiscências por intermédio de vivências partilhadas com terceiros, na maior parte dos casos o outro progenitor. O que diferenciou este ícone, quando colocado nas redes de partilha, foi a força da imagem de um homem pequeno, uma figura minúscula num enquadramento onde se impunha à ambiguidade que o envolvia, feita de formas geométricas traçadas a cor, onde indistintamente, para não dizer alternadamente, se podiam ver retângulos lavrados e linhas de barra de prisão. E, contudo, e talvez fosse essa a sua principal força, a figura central em si quase nada diferia da sua envoltura. Era um homem, podia-se perceber mais pelo triângulo largo que constituía os ombros, que por um qualquer outro sinal de masculinidade vestida, dada a composição banal de figuras geométricas, onde apenas a cor permitia discernir as formas umas das outras, em particular as da figura das restantes. Mas, tinha uma presença no rosto, dividido em quatro por um vermelho barrento e um branco transparente, onde olhos, nariz e boca eram mínimos, como se misteriosamente o humano brotasse da geometria. E essa era a caraterística que era repetida na maior parte dos comentários, devendo-se realçar que, na altura, já a sua visualização era filtrada por software de equanimidade, que garantia uma proporcionalidade dos mesmos, por forma a reduzir o reforço positivo que leva a situações de preconceito induzido. E quem era a sua autora? Mesmo antes de qualquer pesquisa, já o software de classificação automática, responsável pela análise crítica dos ícones, indicava, com um elevado grau de certeza, que a sua autora deveria ter formação em matemática, uma vez que já eram bem conhecidas, nessa época, as típicas constelações neuronais provocadas pelo seu exercício. Assim se veio a confirmar, mas Joaninha sempre se recusou a falar sobre o ícone atribuído a Pinote, não obstante os muitos seguidores que o adotaram como o arquétipo de um pai distante, e várias vezes afirmou que o ícone teria sido publicado à sua revelia. Ademais, soube-se que conviveu pouco com o pai, sendo que apenas o viu algumas vezes, na prisão.
In 25 de abril sempre (2019)
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