domingo, 10 de março de 2019

Hilário segundo Olímpia, por teresinhaxxxxx

O enorme sucesso da Mindicon deveu-se não propriamente ao software de iconografia, cujas funcionalidades foram copiadas passado algum tempo, embora tenha sido determinante ser o primeiro disponível no mercado, mas sim ao conceito de galeria iconográfica onde os ícones foram sendo colocados, e a uma outra funcionalidade, que identificava pegadas cerebrais relacionadas com os ícones expostos, quer aquando das visitas virtuais, quer em dados sobre a época de cada um dos iconografados, enviando depois convites incentivando à contribuição debaixo da sugestão, ícone cerebral, contribua para a história como um artista. Assim, não admira que os dois ícones de Pinote, o de cores geométricas estampado na parede virtual, e a caixa de madeira rodopiando gentilmente em frente a este, com todo o atrevimento de uma representação de uma representação, viessem a ser encarados pelo Hilário segundo Olímpia, por teresinhaxxxxx, naquilo que parece ter sido um autor espontâneo, movido por um impulso, como são caraterizados no modelo de negócio da Mindicon, agora que a versão Home1.0 do software possibilita a iconografia sem a presença de um técnico especializado, ainda que com menor qualidade. Este ícone apresenta um homem a corpo inteiro. Um homem de idade, que o software assegura iconografar Hilário Mendes, agente da P.I.D.E.. É como que um retrato a preto e branco, tirado de imprevisto, em que o alvo da objetiva se vira, sem pretensão que não seja a procura da origem do ruído da máquina fotográfica. Veste um fato cinzento claro, aquele que trajaria um cameleão sobre o fundo do ícone. Mesmo o rosto, já enrugado pela idade, tem um tom que não difere do da camisa, na zona onde as peles pendentes do papo magro tocam os botões apertados do colarinho, numa compostura a que só faz falta a gravata. E, contudo, a figura não passa desapercebida no fundo, pois o fato é moldado por variações de luz que o relevam, como se o corpo modesto pela idade se elevasse acima do ícone. Tem, portanto, uma presença física muito superior à que a falta de cor faria supor, pelo que sobressai a autoridade para interpelar os dois Pinotes presentes, ainda que Hilário segundo Olímpia tenha chegado mais tarde. No corte do fato transparece a humildade de homem escorreito, daqueles que não morrem de doença nenhuma, pois são duros por dentro e por fora, mas sim por um lento esvair do corpo, onde se vão impondo as formas ósseas, já num prenúncio de sepultura em que o fim acontece quando a pele finalmente se une ao esqueleto. Impossível não pensar numa múmia, mas onde naquela as tiras ajeitam e apertam, aqui o fato largueirão dá existência ao corpo que se esfuma. Se do fato sai ação, do rosto sai brandura. Uma brandura a preto e branco, dos abençoados por Deus por chegarem a tão avançada idade. E é isso que espanta o visitante da galeria iconográfica, o fato projeta o ícone para fora, enquanto que o rosto nos puxa para dentro, a determinação do primeiro na interpelação dos Pinotes coadjuvada pela brandura no rosto de Hilário envelhecido.

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