domingo, 17 de março de 2019

Hilário, por romeu76santana

No cérebro a única coisa que é é o corpo que o possui, tudo o resto é imaginado. Hilário, por romeu76santana, é uma obra de claro pendor realista. Iconografado à revelia, com uma versão ilegal do software da Mindicon, onde não pode ser atestada a veracidade cerebral, é um ícone do aqui e do agora. É um corpo tridimensional sobre o qual, na galeria iconográfica Pinote, cai um feixe de luz branca que lhe perfura a pele abrindo-lhe os poros por onde saem pelos curtos, de um loiro quase branco, que lhe varrem os ombros como uma minúscula seara. Está completamente nu, sentado a uma secretária. Em cima desta, uma máquina de escrever com uma folha enrolada no cilindro onde se acabou de bater, A Bem da Nação. O dedo indicador da mão direita, de unha baça, encontra-se a abandonar a tecla o, estando, contudo, ainda emergido num círculo de botões pretos circunscritos a branco. Na unha transparecem as movimentações sanguíneas desencadeadas pelo aliviar da pressão que traz o branco de volta ao centro. O dedo esguio faz a ponte com o corpo, já que os restantes estão recolhidos para não se intrometerem na visão. É um dedo cuidado ao mais ínfimo pormenor, onde as articulações são bem marcadas pelas rugas da pele, não da idade, que o ícone representa um homem no final dos seus trinta, início dos quarenta, mas como manifestações exteriores das rodas dentadas de um mecanismo que se encontra naquele preciso momento a retirar o dedo para trás, cortando toda e qualquer ligação à máquina de escrever. Nesse movimento armam-se os pelos como espigões que impedem quem quer que se aventure a chegar ao corpo durante esta manobra de retirada. A cabeça do ícone está ligeiramente fletida, com os olhos vítreos colados ao que acabou de escrever, à janela aberta pelo baixar da fita. As pálpebras semicerradas, cosidas por um fio de pestanas que as corre de um lado ao outro, acentuam a atitude concentrada, reforçada pela contração dos lábios, em tudo semelhante à das pálpebras, a não ser por estes serem mais carnudos e, como tal, se lhes poder atribuir mais expressão, como se tivessem acabado de projetar para a folha as palavras que os dedos bateram. Em redor dos lábios o mesmo asseio que encontrámos nos dedos, uma superfície asfaltada pelo passar criterioso da lâmina de barbear sobre pelos que já forem imberbes e agora se robusteceram de um cinzento áspero que envolve os lábios róseos. Entre o lábio inferior e o queixo, uma ruja exagerada pelo puxar da boca para fora. Visto de perfil, o ícone está levemente fletido para a frente, como um s mais aberto em cima. Os pés estão juntos, esticados para trás, contrabalançando o fletir da cabeça à frente, como se a figura se encontrasse num momento de oração, no mais próximo da posição fetal que permite uma tarefa de trabalho. O único ponto de apoio desta massa é o tampo da cadeira, onde as nádegas brancas se espalmam, derramando-se do tronco em direção às bordas. A concentração da figura é sublinhada pelo apertar das pernas, de carne branca pintada de compridos pelos negros, por onde assoma uma inofensiva glande vermelha.

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