Se bem percebo o que dizes, Ivone, dizes duas coisas, fita-me o Afonso, colocando um rosto esfíngico onde a fealdade ganha uma postura soberana. A primeira, que existe uma incoerência entre o que defendo e como o defendo. E aí falas abertamente, com a força da argumentação, vasculhando aqui e ali, estimulando diversas extremidades com vista a desencadear choques contraditórios, da mesma forma que se demostra o absurdo que existe no cerne de uma teoria. Mas a segunda é mais sub-reptícia, sugeres que as diferenças entre o negacionismo e o puritanismo são apenas de forma, que o segundo tirou temporariamente partido de uma tecnologia, mas que ambos os movimentos estão condenados. Como se uma entidade externa tivesse munido de armas um dos grupos do planeta com vista a gerar um desiquilíbrio cujo desígnio final é exterminação total. E por isso, por ambas as coisas, fazes uma interpretação messiânica da minha atitude. Apontas-me sinais de entrega total, como se eu fosse um deus, e contrapões a isso os princípios básicos que estão na génese do negacionismo. Mas, Ivone, o que se passa é que esqueces a ordem das coisas, que te interpões ao processo histórico, que o analisas antes como se já soubesses do seu devir. Sim, Ivone, depois de uma guerra é fácil perceber da sua miséria, do seu sem sentido. Mas, é estúpido ignorar a guerra ela própria, as suas origens, quando a ela ainda não foram entregues os corpos em tributo. É estúpido dizer, a guerra é estúpida. Se fosse estúpida, Ivone, aconteceria apenas uma vez ou duas, não se repetiria. Dizer que a guerra é estúpida, é dizer que é estúpida a acumulação de paz, de dia a dia, do destino singular de cada um. Porque, Ivone, é nesse estado que se fermenta a guerra. Sim, é absurda, mas não é estúpida. Mesmo quando agora já não se trate de uma guerra convencional, em que se perdem corpos, mas sim uma guerra em que se perdem nomes. Imagina, Ivone, na guerra convencional, cada corpo tinha um destino, estava prometido a ser qualquer coisa, mas uma só coisa, a ser carteiro, a ser padeiro, e depois chega a guerra e reduz esse destino a nada, e tu dizes, Ivone, a guerra é estúpida, olha como interrompe os destinos, olha as cartas que deixaram de ser entregues. E eu digo-te, olha como depois da guerra as pessoas largam as questões complicadas e se entregam às coisas simples. É absurdo, mas é assim. Assim também é com os nomes, Ivone, quando eu tomo todos os nomes, faço-o pelo negacionismo, pelo direito a cada um poder escolher o seu. Faço para que no fim da guerra, se possa olhar com nojo, e dizer, olha como se diluiu em todos os nomes, olha como ele deixou de ser uma única coisa, olha como se perdeu. E é aí que diferimos profundamente, Ivone. Tu estás constantemente a olhar para dentro, a procurar pequenas justificações nos átomos, e eu estou constantemente olhar para fora, e sabes porquê, Ivone? Porque lá dentro não há nada, porque estive um ano em coma, porque tive oportunidade de estar um ano comigo, e quando regressei tinha passado um ano.
In 25 de abril sempre (2019)
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