Ivone, Ivone, Ivone, repetiu três vezes o Afonso, a do Gonçalo, acrescentou ele sem ponta de ironia. Pelo menos eu não o senti assim, e o que lhe vi no rosto foi a cumplicidade desinteressada dos companheiros de viagem, nos antípodas do olhar dos amantes a meias, que partilham uma vivência arrendatária, cheia de altos e baixos, no gume da cessação do contrato. Como posso responder à tua pergunta? Perguntou-me. Atribuis-me poderes do que não possuo, saberes do que desconheço. E pelo seu rosto perpassaram as permutações que assaltam os homens que não se fecham em convicções. Achas que me cabe a mim definir o destino. Achas que se a um homem, numa caminhada, por muito que saiba aonde o levam as pernas, lhe surge inesperadamente à frente uma alta montanha, ou cai sobre ele uma forte tempestade, achas que tudo decorrerá como planeado? Achas que não parará, não hesitará, não se questionará? Achas que no fim, como se tal coisa existisse, não estará lá a montanha, não estará lá a tormenta? É certo que os seus biógrafos, tais como os romancistas, ou os cineastas, lhe darão uma significação que a enquadrará de início, como uma prova a superar, por forma a engrandecer o feito. Mas, como te digo, Ivone, a biografia é como a literatura, e o cinema, faz-se detrás para a frente. Parte-se do ponto de chegada de forma a que tudo faça sentido deste o ponto de partida. Percebes, Ivone, não é a mim que deves perguntar aonde quero chegar, não é a mim que deves perguntar qual é a vitória do negacionismo, é aos biógrafos, aos historiadores, a todos aqueles que um dia resolvam contar esta história. Eles enquadrarão a montanha como um elemento central no entendimento do objetivo do movimento negacionista, logo na sua origem, pois é assim que se constroem as narrativas. Também nisso diferimos do puritanismo, pergunta-lhes e eles dir-te-ão, sem dúvida, o que é a sua vitória. E, ironicamente, será, o fim do negacionismo. Sim, o negacionismo é a montanha que surgiu no caminho do puritanismo. Por isso, historicamente, o negacionismo e o puritanismo não são diferentes, ambos se constroem detrás para a frente. Mas, Ivone, essencialmente, diferimos na convicção. Estão os puritanistas tão fortalecidos das suas razões que não olharão aos meios para atingir os seus fins, enquanto que a nós, aos negacionistas, apenas nos resta embasbacar pelos sortires das montanhas e das tempestades. Diremos, Ivone, não com revolta, mas com iluminação, ao que chegou o puritanismo. Percebeste mais uma vez a ironia, Ivone. Deus é um gigantesco comediante. O que para os puritanistas são obstáculos a ultrapassar, são para nós os negacionistas, objeto de abismamento, pois os puritanistas querem fazer a história e nós, que, sabemos como a história é feita, trazemos connosco o estigma da derrota. Mas, não é isso que nos faz desistir, não é por sabermos como é feita a história que as nossas pernas não deixam de caminhar. E, claro, sabendo o que sabemos, tudo isso é paradoxal. Pois, é. Por alguma razão, e deixa-me adivinhar, Ivone, estes poderão ser chamados, os loucos anos 60.
In 25 de abril sempre (2019)
Sem comentários:
Enviar um comentário