E depois, continuou o Afonso, tomando folgo com os olhos, mas mantendo o rosto estático, como no ligeiro movimento helicoidal da lente de uma máquina fotográfica que retrocede e avança, aos poucos, para se assegurar da precisão de foco. Depois, continuou o Afonso, na tua argumentação há um pressuposto basilar, que talvez as diferenças entre o puritanismo e o negacionismo sejam ténues, que não difiram no essencial, que sejam apenas duas manifestações do mesmo princípio, como se constata quando se descarna os corpos de dois seres que se odeiam, e talvez até te ocorra, nas tuas demandas de sentido, se daí não advirá alguma espiritualidade entre os canibais. E, desculpa repetir-me, Ivone, o que de facto te norteia é essa busca da verdade na forma de um princípio, de um modelo. Por isso te refiro a tua necessidade de justificação nos átomos, nas partículas fundamentais. E é bonito, é. Entretém-te e satisfaz-te, ao mesmo tempo. Se fosse noutro tempo, diria que sofrerias dos desvios pequeno burgueses, e dos seus sonhos. Fazer o que se gosta, de modo que o trabalho se transforma de tal forma num prazer que se esquece da necessidade de lutar para comer, da nossa, e, por perigoso subjetivismo, da dos outros. Porque não fazem eles o que gostam?, seria o leve pestanejo que enxota os vicissitudes que não são as nossas. Essa paz, que gostarias de alcançar, essa torre de marfim, onde gostarias de te instalar para perceber o mundo, para o reduzir às suas leis fundamentais, permite-te pretender imaginar que o puritanismo e o negacionismo são a mesma coisa, embebidas nos mesmos princípios e nas mesmas leis. E eu, Ivone, respondo-te, é verdade e é mentira. Tens razão e a razão que tens é estéril e quase fantasmagórica, lançando sobre a realidade uma sombra asfixiante. Tens razão, quando falas da inveja que o negacionismo pode ter dos filmes do puritanismo. Tens razão, quando dizes que talvez não estejamos perante outra coisa que não sejam jogos de classificação. Mas não te podes reduzir à forma, quando a função dos corpos deve imperar sobre a sua estrutura. É importante perceber onde é que estas novas tecnologias nos poderão levar e quem tem o poder de as utilizar. Não poderás discordar de mim, que o corpo do escravo não difere do do seu amo e que, contudo, em tudo o resto divergem, e se duvidas, ou se subitamente te ocorre mais alguma aguda formulação, pergunta ao escravo. E para que verdadeiramente o entendas em ti, Ivone, arriscar-me ia a dizer que tu, Ivone, dedicaste a tua vida à procura do amor, e que sempre menosprezaste a função, ou pelo menos assim o pensaste. Que em cada relação procuraste aprofundar o essencial, as miudezas das manifestações intensas, engrandecendo momentos e descurando o dia a dia, e todo o simbolismo aí envolvido. E que com alguma benevolência procuras-me atribuir também a mim esse desprendimento, julgando-me julgas-te, pois questionas-te a ti mesma se fizeste bem, se terá sido esse o melhor caminho. Classificaste o amor, desclassificando-o como elemento funcional, convencida, quiça, numa resiliência.
In 25 de abril sempre (2019)
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