domingo, 20 de janeiro de 2019

Uma estranha forma de amor

O Afonso agarrou o pé do copo de vinho com o punho fechado e levou-o à boca, bebendo de um só trago, como se de um penálti se tratasse. Depois, e é-me muito fácil descrever este momento, pois ele ficou-me gravado na memória, de tal forma que terei de recorrer às liberdades literárias, que não há outras que permitam, na ausência da iconografia cerebral, que vós que me ledes desconheceis, e assim, não há outras que permitam, dizia, uma total capacidade de descrever o que lentamente se encastra na memória e que por isso se enriquece de detalhes, tornando a recordação desse particular momento o centro de um vórtice para onde sugamos tudo o que diz respeito à pessoa ou situação em causa. Depois, olhou-me com o rosto descarnado, não colocando nele a menor necessidade de empatia social, nenhuma frequência no espetro do amor ou da raiva, branco, vermelho, descarnado, abriu a boca, e se houvesse em Afonso alguma intenção corporal, uma necessidade de marcar o seu lugar, como nas costas de uma cadeira se coloca um casaco antes de ir buscar a comida ao buffet, diria, abriu a boca sem maneiras, expondo os dentes carcomidos pelos anos de chinesinhas e lambidos pelos restos de vinho acabado de por lá passar. Sei que não é possível, que o vinho tinto, ainda que acabado de beber, não pode deixar umas marcas tão intensas nos dentes como estas que recordo, mas são as que recordo, que estão lá sempre que recordo, e mais, são espessas, como um gel que traça cintilantes contornos, dando à boca uma luminosidade que me convida, e de onde não retiro mais os olhos, pelo menos tanto quanto me lembro, fixo-me na cavidade bucal, enorme, eternizada pela cera, e de onde as palavras vão sair uma a uma, ordeiras e retumbantes, abalroando-me a alma, se é que tenho tal coisa. Falas de vestir paradoxos, Ivone, e dizes com ironia que ninguém os veste, que o paradoxo é um não ser, que só é o que se classifica, que para ser temos que vestir uma etiqueta, ivesanlaurent, soletrou trambolhando a língua entre os dentes, e sim, concordas que o paradoxo é a vida, mas que é inútil, que o bebé quando nasce não quer saber de paradoxos, come e evacua, sem se questionar, e que se tiver uma vida saudável, continuará assim até à morte, apenas cobrindo estes dois atos das etiquetas da cultura, um chateauiquemsauterns para o primeiro, e um de retiro de silêncio para o segundo, e desculpa-me a ironia, a mim também, Ivone, diz, abrindo a boca por onde lhe vislumbro a úvula, húmida, balançando brilhante, provocando um jogo de sombras nas amígdalas, mas eu, tal como me atraem as mulheres belas, esguias, de harmoniosos traços, também me sinto cativado pelas feias, por aquelas em quem ninguém repara a não ser para não reparar, todas me extasiam, me deixam fora de mim, e a todas dou o meu amor, intensamente, de igual forma, e como classificarias este meu ser?, parece-te paradoxal?, mas podes estar certa que é intencional, e és capaz de pensar, não é, o que te classifica é o amor, Afonso, és como um homem santo, mas o que dirás, Ivone, se te dizer que também me enchem de aborrecimento?

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