sábado, 26 de janeiro de 2019

Negar o negacionismo

Afonso, disse, procurando sair daquela cave para onde me deixei ir enfeitiçada. E aqui até me obrigas a fazer uso da tua retórica, da tua dialética, que até parece que a perdeste desde que resolveste beber o vinho, que eu bem reparei, e se calhar quiseste que eu reparasse, como uma representação da negação. Afonso, acho que por um lado exageras, e que por outro perdes a coerência. Repara que não é possível que o que afirmas seja verdade, esse desprendimento, essa entrega, não faz sentido, está bem nas intenções, mas sabemos que as coisas não são assim, saímos do corpo atrás das ideias e ali vamos nós, uma atrás da outra, e quando regressamos perdemos o contacto com a realidade, e damos por nós a amar ou a odiar outros corpos, só porque sim, só porque estivemos muito tempo fora. É por isso que os amantes jovens, e repara que não são necessariamente os jovens amantes, Afonso, têm pavor à distância, porque passam muito tempo a imaginar, com saudades, dizem, pelo que quando regressam há um frenesim, uma ansiedade, de saber se as suas efabulações foram convergentes ou divergentes e só voltam a obter a serenidade depois de cruzarem os corpos. De deixarem as teorias, Afonso. Disso são feitos os movimentos de massas e as guerras civis. Achas mesmo, Afonso, que te atraem todas as mulheres e que todas te aborrecem? Sim, é o píncaro do negacionismo, mas é verdade? Porque necessitas de entregar o teu corpo à tua causa? Porque te martirizas? E este é a segundo aspeto, aquele em que perdes a coerência. Não é o negacionismo um movimento para fazer frente ao puritanismo? Não é o objetivo do negacionismo a preservação da liberdade do indivíduo, da sua capacidade de decidir do seu próprio destino para além de um conjunto de destinos preestabelecidos? Sim, responder-me-ás, e acrescentarás, o seu magno objetivo é poder ser para além da classificação, e por isso te despes de toda a roupa e te entregas ao devaneio. Mas, Afonso, e isso é que é contraditório, o resultado é um indivíduo que não tem liberdade de decidir, porque pura e simplesmente deixou de existir. Essa estratégia de fazer o todo, de percorrer todos os caminhos, para dar aos homens a liberdade de escolherem o seu, um qualquer, é meritória, mas está feita para os deuses, não para um único homem, ainda que líder de um movimento, ainda que admirado, consagrado e entronizado. Receio, Afonso, que ao lutares desta forma pelo negacionismo, ao te entregares a ele desta forma, ao quereres seres a sua representação, ao tornares o teu corpo num símbolo, ao negares o teu eu, a possibilidade do teu caminho, negas o negacionismo. E sim, Afonso, sei que há uma beleza nessa loucura, uma grandiosidade, uma totalidade, daquela que se consegue apenas perceber num flash, que essa ideia nos agarra por dentro, não nos larga, nos dá um fervor, uma determinação, quase cega, que nos orienta, de nos faz entregar ao sacrifício como um ato de extrema beleza, Afonso, como as estátuas de heróis imberbes mortos em guerras, mas Afonso, não negues o negacionismo.

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