domingo, 6 de janeiro de 2019

Mente aberta

Mas vamos ver Afonso, digo-lhe após um prolongado silêncio em que nos olhámos pela primeira vez demoradamente, isso não é de todo possível. Esse livro, ou devo dizer a mente, não é fechado. Ou seja, marco uma pausa agora que ele volta a colocar os olhos para dentro, no próprio momento em que ele é lido já lá tem outra coisa. Parece-me, Afonso, que o negacionismo radical sofre do mesmo defeito do puritanismo, a ideia que as coisas existem tal como parecem, que podemos estar a olhar algo sem o modificar nesse preciso momento. Tudo o que observamos, Afonso, vai sempre um pouco à nossa frente. A dialética é a maior falácia do pensamento ocidental, arrisco, agora que o sinto absorto, quase como que enfeitiçado pelas minhas palavras, que, confesso, eu própria não tenho a cautela de pesar com o cuidado devido antes de as pronunciar. Ele volta-me a olhar, primeiro surpreendido, depois com o sorriso de quem tem prazer de ser apanhado nessa situação. Dá-me satisfação tê-lo assim, e resolvo jogar no seu próprio território. Sabes, Afonso, se os puritanistas gostam de fazer filmes que possam arrumar tudo no seu lugar, que sejam basilares acerca do que está bem e o que está mal, que os possam mostrar às suas crianças, como quadros representativos do que sempre foi e do que sempre será. Então, Afonso, estou em crer, que os negacionistas também estão convencidos que assim seja, apenas estão contra aqueles filmes, e, por isso, pretendem entrar pela sala de cinema adentro e partir tudo o que lá está. E depois temos os puritanistas a fazer um novo filme sobre o assalto ao cinema, e irão com certeza classificar com exímia esse desmando, quiçá irrefletido, dos negacionistas. A dialética é como uma droga, pede-nos sempre mais. Pois é, Afonso, procuro desferir num golpe final, parece-me que os negacionistas defendem um livro aberto apenas por impotência, mas na realidade, ao darem tanto ênfase ao estado do livro não estão longe dos puritanistas, apenas lhes faltam os meios para o esconder eficazmente. O Afonso olha-me com o sorriso amigo, de quem apreciou a argumentação, o raciocínio, e indulgente, de quem olha para uma criança que acabou de dizer algo que se aproxima da realidade, mas continua muito longe da mesma. Pois é Ivone, tens razão, mas o que é que pretendes? Que nos entreguemos à contemplação dessa mente aberta, enquanto os puritanistas nos comem? Pretendes que os observemos tragando-nos e que vejamos como é que a nossa mente se vai metamorfoseando? Sim, é verdade, que a diferença está em que nós não conseguimos ler o livro deles, mas eles leem o nosso. É essa a diferença de classe, não de classes. Percebes, Ivone, pergunta-me com um sorriso. Quem pode classifica como quer, quem não pode é classificado. Ou porque é que achas que os pretos são pretos? Porque os brancos podem! Pudessem os pretos, percebes Ivone. Por isso, a solução não é a contemplação do constante fluxo da mente, a solução é a dialética. Só a mente aberta pode definitivamente provocar uma verdadeira revolução, uma viragem na luta de classes.

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