Considera então, explica-me o Afonso, a situação em que das mais variadas formas, seja pela iconografia cerebral ou uma outra técnica, começam a aceder diretamente ao teu cérebro. O que pensas que poderá acontecer nesta situação? Não, supõe antes, de uma forma mais simples, que tens um pequeno livro onde tomas as tuas notas, coisas pessoais, ou não, e não sabes se alguma vez as irás transmitir a alguém, mas estão para já ali, apenas ali, no papel, no livrinho fechado, dentro de uma gaveta. Imagina, Ivone, que um dia suspeitas que alguém abre essa gaveta e perscruta o que escreves. Não sabes qual a razão pelo que o fará, mas isso também não tem importância. A questão é, Ivone, e finalmente Afonso tira os olhos do vazio, dirigindo-se a mim, a questão é, repete, não sei se para tomar fôlego, ou porque se distrai com a minha face. Devemos esconder o livrinho? Devemos deixar de escrever? Ivone, que te parece? Pergunta com os olhos apontados acima das minhas sobrancelhas. Primeiro talvez o escondas, continua perante o meu silêncio, mas a incerteza já se instalou em ti, e passas o tempo a mudar de local, ficando, por um lado, com a sensação que o esconderijo onde esteve antes talvez fosse melhor e, por outro, que há cada vez menos locais para o esconder, de forma que ao fim de algum tempo desistes, resolves desfazer-te do livro e deixar de escrever. É isso o puritanismo, Ivone. Vives então assim conformado, aborreces-te e depois revoltas-te. Por que razão não podes ter um livro numa gaveta onde escreves o que te apetecer. Então, Ivone, tomas uma decisão mais radical, retomas à escrita, começando a escrever tudo o que te apetece e simulando que te preocupas em esconder o livrinho. E não simulas por astúcia, mas por direito próprio. Aventuras-te pois a escrever mesmo tudo, até o que antes nunca te tinha ocorrido, e dessa forma pretendes intoxicar aqueles que supostamente te leem, enchê-los de contradições, de vai e vens, e acima de tudo, o mais importante, nunca podes dizer que o que lá escreves seja mentira, porque não o é. Isso, Ivone, é o negacionismo. Agora vem o mais importante, o corolário deste teu desaforo é começares a sofrer as consequências pelo que escreves num livro que não dás a ler a ninguém. De quem é a culpa, Ivone? Questiona-me com o ar inflamado de quem após uma longa refrega se prepara para levantar a bandeira que traz nas mãos. De quem é a culpa, Ivone, por se enfurecerem por aquilo que escreves e escondes dentro de uma gaveta? De ti que escreves ou deles que leem? Insiste especado, esperando pela minha resposta para levantar bem alto a bandeira do negacionismo. Procuro dizer algo que lhe retire a exaltação a que chegou, e que sem o querer contradizer permita encontrar um meio termo, uma conciliação, e de repente ocorre-me aquilo que parece ser um bom compromisso. Digo-lhe. Acho, Afonso, que os que leem muito em breve vão perceber que está a ser escrito o está para ser apenas lido por quem o escreve e, por isso, aos poucos irão ignorar. Aí, numa exclamação, o Afonso diz, acreditas nisso, Ivone? Tens de tirar o livro da gaveta.
In 25 de abril sempre (2019)
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