domingo, 13 de janeiro de 2019

Do fim da história

Concordo, Afonso. Sim, é verdade que, se apenas alguns puderem ler a mente, será uma típica questão de poder, e isso a que chamas luta de classes, que se te estou a perceber bem, não é mais do que uma luta de nomes, ou direi melhor se dizer, de nomeações, isso resume-se ao que sempre a história fez, o poder de quem é quem determinar quem é o quê. Mas, tu bem sabes que a tecnologia se banaliza rapidamente e chega o momento em que todos terão acesso à capacidade de ler a mente, qualquer mente, pelo que quem é quem não se diferenciará de quem é o quê. O fim da história, se assim quiseres, acontecerá no preciso momento em que a roupa se tornar supérflua, essa pretensão que colocamos sobre o quê para sermos quem. O fim desse lento processo que iniciámos quando descemos das árvores, quando começámos a intermediar o movimento da mão em direção ao fruto com as vestes da cultura. E, oh, como nos tornámos exímios nessa arte, digo-lhe enquanto levanto o copo de vinho tinto e fico a balanceá-lo em frente dos olhos, fitando o Afonso com um sorriso, porventura condescendente, através do fino vidro abaulado, tendo como pano de fundo os tons ondulantes de vermelho. E ocorre-me acentuar, é a distância, Afonso, que vai deste copo aos frutos das plantas que tiveram de ser domesticadas para vir a ser videiras que ameaça eclipsar de um momento para o outro. O fim da história, insisto. Porque a história não gosta de empates. Acaba por se aborrecer, definha e eventualmente morre. E tu dirás, Afonso, que depois desta tecnologia virá uma outra, e que ela criará diferenciação, fará a história dar mais um passo em frente, mas o que poderá ser vendado quando tudo estiver desvendado? Pergunto-lhe, enquanto ele hesita em levantar o copo cujo pé aperta entre o indicador e o médio, debruçado que está para a mesa baixa do bar. Nisso o negacionismo pode já estar à frente, e pelas razões erradas, continuo, senão vejamos. Repara como todo o movimento se faz em desvendar, em exaurir o espaço das possibilidades, em vestir todas as vestes, e não há ninguém mais vazio do que um ator, Afonso. Que pensas que sente quem já sentiu tudo? Aborrece-se, se não se tiver tornado sátiro, e mesmo isso, o que não é senão um aborrecimento, um impasse. Mesmo o elogio do paradoxo, talvez o ato maior do movimento negacionista, é a prova rematada do anúncio do fim da história. Já viste alguém vestir um paradoxo? Sim, olhamos para os outros, vemos o seu comportamento e dizemos, repara como é paradoxal, por isto e por aquilo. E o movimento negacionista diz, muito provavelmente com verdade, que o paradoxo está no cerne da vida. Mas já viste alguém vestir um paradoxo? Levantar-se de manhã da cama, abrir o armário, passar a mão pelos cabides perguntando-se, que paradoxo levo hoje vestido? E como um vestido de gala? Como um smoking para ir a um casamento. Conheço quem tenha ido de palhaço, mas logo arranjou oportunidade para dizer, desculpando-se, sou amigo do noivo. Digo-lhe, fitando-o e levando o copo à boca, sentido o vinho tinto a subir pelas narinas e a descer pela garganta.

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