sábado, 29 de dezembro de 2018

Sou a Ivone, a do Gonçalo.

E ele olhou-me com um ar surpreendido, tentando encontrar rapidamente um caminho na memória que o libertasse do embaraço. Gonçalo? Soletrou para dentro, iniciando uma procura interior. O Gonçalo Martins, do movimento em Leiria? Questionou, alçando os olhos, regressando à superfície, talvez perante uma bifurcação. Não, respondi-lhe. O Gonçalo, que era amigo dos seus pais quando o Afonso ainda era pequeno. Do Gonçalo?!, do Zalo!?. Interrogou-me de volta, puxando a cabeça ligeiramente atrás, como quem compara dois nomes a ver se são iguais. Sim, do Zalo. Confirmei-lhe. Eras Ivone? Sondou-me, com o rosto branco e os olhos ligeiramente desniveladas, como se acreditasse agora no corpo que tinha diante de si mas ainda tivesse dúvidas acerca do nome. Sim, sou Ivone, repeti. Ivone. Disse com um sorriso, ligando nomes não antes conexos. Sim, lembro-me de ti, desculpa, já foi há bastante tempo. Quarenta anos? Eu teria uns 10 quando ele morreu. E o raio do Linker, disse rapidamente, para retroceder daquele caminho, indicava-me haver uma tão forte ligação entre nós, que eu vim falar contigo apenas para mostrar que estava errado. E de facto parece haver, mas não faz muito sentido, como poderá saber?, naquela época ainda não eram recolhidos dados de forma sistemática. E o Zalo já morreu há tantos anos, retomou absorto. Embora haja suspeitas que começaram a recolher diretamente informação do cérebro das pessoas, por forma a reconstruir o passado, quase que sussurrou, cabeceando para os lados. Parece que o modelo de negócio se deve ao aumento da esperança de vida, passou para um tom mais coloquial. Há um número significativo de possíveis consumidores de quem possuem apenas informação parcial, e esse número não se está a reduzir de forma tão significativa, como era inicialmente expetável. Alegam que com um mapeamento completo podem proporcionar uma maior satisfação. A promessa da felicidade, Ivone, a promessa da felicidade, afinal tudo se resume a isso. A Ivone fez recentemente uma iconografia cerebral? Perguntou-me. interrompendo-se, ligeiramente desconfiado, levantando as pálpebras, expondo os globos oculares vítreos em todo o seu volume, e continuando sem me dar tempo de responder. Tornou-se moda iconografar a memória das pessoas falecidas. Dizem que supera os álbuns de fotografias. Para quê passar horas a zapar fotografias se pode dedicar-se à contemplação da mais bela síntese que o cérebro fez dos seus entes queridos, é a mensagem de marketing. Podemos entronizar os nossos falecidos, adorá-los como a ícone. Foi desenvolvido por uma empresa russa. Ah, não sei se sabes, o meu pai faleceu há cerca de seis anos. Lembraste do meu pai? E a minha irmã tem insistido com a minha mãe para ela fazer uma iconografia, que inclua os tempos que passaram no Alentejo. Diz que gostaria de poder visualizar o meu pai iconografado ainda com informação dos tempos antes do 25 de abril. Mas o que eu acho, é que é coisa do Romeu, o marido dela, sabes. Ele até sugeriu a possibilidade de iconografar o capitão Armando Simões e o Hilário Mendes.

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