domingo, 9 de dezembro de 2018

Os negacionistas

Tive que ir a um dicionário de 2018 para confirmar qual era então o significado da palavra negacionista. Este é um dos problemas de estarmos a escrever para o passado. E não é o único. Vivesse eu o sonho de todo o escritor, de vir a ser famosa, e viveria neste dilema de ter os meus leitores num tempo anterior ao da escrita, arriscando-me que o meu presente fosse a sobreposição entre a incerteza na solidão deste canto em frente ao teclado e as plateias de consonantes estados de alma por mim produzidos, pequenos clones da minha pena. Ou então, a sobreposição com o insucesso, em que as letras que me saem da mão logo mirram. Para vós que me ledes então, a melhor imagem que vos posso dar é a da sobreposição de estados de espírito de uma mente que ao escrever vai saltitando entre a euforia da genialidade e pavor da mediocridade. Mas não padeço desse sonho. Porque tenho 100 anos. Porque não há maneira de morrer. Porque no dicionário de 2060 na palavra escritor lesse, profissão desaparecida no início do século devido à introdução das transferências cerebrais. Sou, contudo, uma saudosista, e em vez de gozar de uma transferência, prefiro escrever para vós e procurar, depois, na constante reescrita do tempo uma referência ao meu nome, uma referência à minha narrativa. Tipo, Ivone Lourenço, escritora, foi considerada por alguns uma das vozes mais frescas da sua época, escreveu uma única obra, 25 de abril sempre. Nem sei, se em vez de saudosista não deverei dizer negacionista. Embora o negacionismo já lá vá. Foi um movimento estúpido, é certo. Retrógrado, é certo. Irracional, é certo. Mas temos que perceber que foi natural. Como hão de os seres reagir após milénios de loas ao esplendor do desconhecimento. Como hão de os seres reagir quando se procriaram e dizimaram porque um sentimento profundo tomava conta deles. Um sentimento tão total, que qualquer tentativa de o negar desencadeava as reações mais brutais. Como hão de os seres reagir quando uma bela manhã alguém lhes tira o eu. E não como resultado de um descalabro ocasional, de uma vicissitude da vida, daquelas que, porque o questionam, apenas o fortalecem, ainda que na turbulência dos vapores. Mas sim porque o eu foi escapulido com uma verdade demonstrável, a cada momento, a cada ação, e com um toque de sensatez. O algoritmo dizia, faz isto, que é o melhor para ti. E era. E isso é que era fodido. Talvez esta seja a melhor forma de vos explicar o eclodir do movimento negacionista. Como na época as pessoas se entregaram à negação. Faziam exatamente o contrário do que lhes era recomendado. Surgiram mesmo alguns teóricos do movimento. O Afonso foi um deles. Um homem de letras. Advogava ele, tínhamos de inundar os algoritmos com novos dados que contradissessem as suas conclusões. Dizia ele, li nos jornais, temos que dissolver os padrões no grande oceano da alma humana. Um homem de letras. Foram os nossos loucos anos 60, pois, raras exceções, como a do Afonso, fomos a geração bandeira do movimento. Recordo também ler a entrevista da Catarina, apresentada como a irmã do Afonso, que estava cheia de razão.