domingo, 16 de dezembro de 2018

O puritanismo

O negacionismo talvez pudesse ter sido um fait-divers, um pequeno sobressalto social, banal e inconsequente, como é apanágio da normalidade. Mas assim não foi. E, sabemos hoje, por culpa do puritanismo. Mas não do puritanismo clássico, feito pelos puritanos, com raízes anteriores ao negacionismo. Não por um puritanismo que tivesse visto uma oportunidade para se manifestar, que estando de olho, naturalmente desconfiado da natureza deste e daquele, certo que só não prevaricariam porque não podiam, porque tinham medo, por serem uns dissimulados, e ser sabido como são atreitos ao descuido e ao desmazelo. Mas sim de um puritanismo a posteriori, construído como resposta ao negacionismo e fortalecido na reação a este. De qualquer forma, em comum, ambas as formas de puritanismo possuem uma absoluta confiança nos padrões. E, naquele estádio da evolução do ser humano, em que as mentes ainda eram disciplinadas pelo pensamento dialético, moldando-se por oposição, rapidamente se gerou um evidente mal-estar entre os que trabalhavam na identificação de padrões, quando pressentiram que cada uma das suas conclusões de hoje poderia seria negada pelos dados do dia seguinte, e que é o mesmo que dizer, pelos comportamentos. E, faço notar, como décadas depois ficou evidente pelos estudos realizados, que não é certo que os comportamentos negacionistas, se ignorados, pudessem alguma vez vir a conseguir alterar de forma significativa os dados. Mas bastou a suspeita, e o receio, para aguçar o engenho. E, se calhar, nem sequer era esse temor o verdadeiro problema, talvez fosse apenas uma necessidade de garantir a credibilidade, que toda a autoridade teme a arruaça, por muito reduzido que seja o seu real impacto, mesmo que se limite a apenas um simples bater de pé. Também é esse um sinal dos tempos, em que os mais racionais seres ainda não se tinham libertado do seu eu emotivo. Como mais tarde disse um dos principais envolvidos, nada mais importante do que o nosso bom nome. Isto, ironicamente, quando o desboroar do eu primitivo e difuso dava lugar a uma forte afirmação do estruturado eu puritanista, não confundi com os puritanos, estamos a falar de movimentos do segundo quartel do século XXI que, obviamente, ainda desconheceis. Sim, foi uma guerra de nomes, aquela em que se envolveram os negacionistas com os puritanistas. Disse alguém que, desde a fim da pré-história, nunca a arte poética tinha tido uma dimensão tão política. Aquilo que uns revelavam de manhã era logo de tarde negado pelos outros. Estudavam-se assim mutuamente, procurando os puritanistas incorporar as negações como variações ao padrão. Se os puritanistas declarassem que tinham encontrado uma correlação que indicava que a sinceridade numa relação era um dos principais indicadores da satisfação pessoal, e se disso tomassem conhecimento os negacionistas durante o almoço, logo a tarde era passada na concretização dos mais elaborados ardis capazes de justificar desde a mentira mais piedosa até à mais perversa, achando que assim dariam uma lição de humanidade ao puritanismo.