domingo, 23 de dezembro de 2018

Google Linker

Por vezes, um morto num hop, embora provoque o aumento da distância, propicia a aproximação. O Afonso tornou-se num dos símbolos do movimento negacionista. Não um líder, pois, como ele não se cansava de repetir, de líderes gostam os puritanistas, que até já têm um padrão bem definido e uma mão cheia de candidatos a preenchê-lo. Neste tom eram dadas as entrevistas. Quase sempre encimadas por aquela frase, que se foi tornando num dos slogans do movimento, vamos dissolver os padrões no grande oceano da alma humana. E claro, eram abundantes os comentários dos comentadores, abonatórios, até porque elogiar é uma forma de embarcar e estava-se na fase em que ninguém queria ficar de fora. Tinha tido a vida perscrutada e cada caraterística descortinada, qualquer que ela fosse, queixou-se me ele mais tarde, era razão de interesse e opinião. Os anos de dependência das drogas, e o navegar de outros mares. O ano em coma, e a importância da ausência. O ar despassarado, e a capacidade de surpreender. A atitude desprendida, com o seu quê de missionário. A mãe revolucionária, que era apontada como estando na génese da sua atitude inconformista, ainda que eu soubesse que ele tinha pouco a ver com ela. Tinha antes a persistência dos iluminados, bem mais próxima da desorientação do Zé, nada que se parecesse com a forma metódica como a Joaninha enfrentava as dificuldades. Estava do lado fácil, como se queixava a irmã Catarina, não é ele que tem que escrever os algoritmos, não é ele que tem que ganhar a vida à procura dos padrões, basta-lhe desdizer. E se ela tinha alguma razão, eu não resistia a ler cada uma das entrevistas. No início até isso me sabia um pouco a transgressão. Construir uma forma através das palavras lidas. O filho do Zé. Que conheci quando ainda era uma criança. Que adorava o Gonçalo. O Super Afonso, defensor dos oprimidos. O Afonso, a quem, estranho agora, nunca me liguei. De quem soube depois apenas através da voz do pai deitado. Quase sempre em solilóquio, que as conversas acerca da família dele eram dele para com ele. E teria ficado assim. Mas o pai morto abria uma distância. Permitia-me vê-lo como já não sendo o filho do Zé, o que possibilitava vê-lo como sendo o filho do Zé. Talvez por isso tenha começado a fazer parte do movimento. Participava nas reuniões de negação, em que se formulavam paradoxos. A única verdade tangível está no paradoxo, dizia o Afonso, tudo o resto é estatística, uma aproximação. E eu ficava a ouvir à distância, procurando perceber o que haveria do Zé. Era significativamente menos do que tinha imaginado. Era revolto como o pai. Mas no corpo não se lhe assemelhava. Parecia que lhe faltava algo. Alto, como o pai. Os olhos pareciam não encaixar bem nas órbitas. Sorria, como o pai. Mas era senhor de uma assimetria completa. Um dia veio ter comigo, como se me tivesse reconhecido, e disse, o Google Linker sugeriu-me conhecer a Ivone, diz que temos muito em comum, não acredito, como pode saber o que nós não sabemos, disse, meio a sério, meio a brincar, piscando os olhos enquanto falava, deve ser apenas uma aproximação, e riu.

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