Parece ridículo resolver escrever as memórias numa época em que a memória deixou de ser um problema. Quando por meia dúzia de moedas mensais se pode descarregar tudo o que temos na cabeça e colocar na nuvem. Sim, é verdade que no início ainda se questionou da sua pertinência, pelo menos até haver um completo entendimento do conteúdo de cada uma das partes do cérebro. Seria, dizia-se, como convidar um estranho para casa, desconhecendo os seus hábitos, e quem sabe o que poderia acontecer uma vez livre do invólucro a que esteve acostumado. Houve também quem alertasse para o perigo de separar a mente do corpo. Especialmente, quando posteriormente se procedesse à recarga, quando se desse a ressincronização entre o que permaneceu e o que regressava do exterior. Mas a curiosidade, e a vontade de experimentar, ultrapassa quase sempre a cautela. Sub-repticiamente, alguns laboratórios privados, não que não se suspeite que os governos não o tenham também tentado, começaram a fazer experiências. Afinal nem era uma tecnologia particularmente complicada. Conseguia-se montar com alguns componentes comuns em jogos de realidade virtual da época, desde, claro, que não se importassem de correr riscos. Por isso, ofereciam dinheiro aos supérfluos, quase sempre viciados em jogos, que aceitavam ter o cérebro duplicado, no início, por uns meros microssegundos, e recarregado de novo. Os primeiros resultados não foram particularmente entusiasmantes. Tonturas e falta de memória. Mas alguns aperfeiçoamentos permitiram alcançar uma sincronização mais eficaz, em que cada parte regressava com precisão ao lugar de onde tinha saído, o que levou a experiências com maior duração, tendo-se chegado à ordem dos minutos de coexistência separada. A partir daí começaram os indivíduos a descrever uma sensação de espanto quando se dava a fusão. Como um encontro entre estranhos com um cheiro a déjà-vu, em que duas almas gémeas se reencontram de forma inesperada. Chegou-se a afirmar que isso seria o amor. Como um sonho que atiramos ao ar e que quando dele nos damos conta se nos apoderou do corpo. Dizia-se na altura com emoção. Quando ainda não se tinha começado a forçar a separação por longos períodos, e a induzir cada uma das partes às mais dissemelhantes experiências, antes de as fundir de novo, que disso relatarei mais à frente. E conto-vos isto em adianto, como uma breve introdução, quiçá um resumo executivo, das minhas memórias, de como hoje a memória é completamente inútil. Para vos dizer de como recordo o Zé, deitado, com o corpo nu, descoberto sobre a cama, olhando o teto, falava, como se estivesse só, da estranheza do regresso do Afonso após um ano de coma. Repetiu várias vezes ao longo dos anos, não sei se disso tinha consciência, que o Afonso não tinha regressado o mesmo. Tinha algo dentro da cabeça que não entendia. Percebia melhor a sua fase de viciado. Percebia a dependência do corpo e a subserviência do cérebro, como ambos jogavam um jogo de subversão, mas agora parecia que a mente do Afonso regressava como se tivesse sido alvo de uma devassa.
In 25 de abril sempre (2018)