Um homem mais velho, oito anos mais velho, mas agora não me parece fazer muita diferença, não quando o vi da última vez, há quase vinte anos atrás, no funeral do Gonçalo, despediram-se, é verdade, com garantias dadas de se encontrarem de novo, mas nem de um lado, nem do outro, acabou por haver um movimento de aproximação, não é verdade, a Joaninha ligou uma ou duas vezes, mas sempre renovei, e não cumpri, a promessa de os visitar, nem sequer os miúdos, ou talvez por causa dos miúdos, o fim da infância, ainda antes da intervenção da adolescência, dá-lhes um brilho de maçãs polidas numa cesta de vime, bonitas, muito apresentáveis, com uma vivacidade saudável na pele, golden, dizem, e a mim, nessa altura, aborrecia-me essa compostura, confesso que nunca me agradou, também já não os via há algum tempo, nem sequer privei com eles no ano que estive separada do Gonçalo, antes do acidente, e eles também não foram ao funeral, parece que a Catarina queria ir, disse a Joaninha, logo a mais pequena, teria uns oito anos, não o Afonso, mas não, não vieram, ainda bem, pensei na altura, o Gonçalo gostava deles, as visitas que lhes fazíamos eram quase sempre à volta das crianças, um miúdo com os miúdos, comentávamos, nem que fosse para dizer alguma coisa, mas sim, era assim, é assim a empatia, mas eu não, não sentia-a essa necessidade de aproximação, deixava ao Gonçalo toda a dedicação, acabava por me refugiar na conversa com a Joaninha, que o Zé era mais reservado, simpático sempre, mas com aquela distância dos psiquiatras, como enfermeira fui reconhecendo essa marca noutros psiquiatras, um distanciamento em relação às coisas, como se tivessem sido calejados por um segundo sentido das circunstâncias, como quem pega em panelas quentes sem um relampejo, e as retira do fogão para cima da mesa como se nada fosse, como se não houvesse fogo, sim parecia-me frio o Zé, por isso, fiquei contente que não viessem, não saberia o que lhes dizer, sem o Gonçalo para ocupar esse lugar, especialmente à Catarina, que tinha um olhar que trespassava, mesmo quando perguntava a coisa mais insignificante, porquê, dizia, e a mim parecia-me que sabia a resposta, que me estava a testar, por isso, nas visitas a casa deles, era com a Joaninha que conversava, mas já não sei do quê, e o Zé estava por ali, falava às vezes com o Gonçalo, e nunca me ocorreu nada, nem o mais leve fervor, e parecia-me tão mais velho, oito anos são muitos anos, a idade da Catarina, medimos as pessoas pelos filhos que têm, como travessas na passadeira da vida, o Afonso teria uns dez anos, e agora, vinte anos depois foi o Zé que me reconheceu, chamou-me no hospital, Ivone, és a Ivone, não és, e depois ficou calado, como se me coubesse a mim dizer algo, senti-me então como se eu fosse uma panela ao lume, como se tivesse estado toda a vida em cima de uma chama e nunca me tivesse apercebido disso, talvez fosse a altura de um homem pegar em mim e me colocar em cima da mesa, sem palavras, sem demonstrar emoção, e então percebi que oito anos não são muitos anos.
In 25 de abril sempre (2018)
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