casados, deslizai para a esquerda. porque na vida acontece tudo muito rápido. passaram treze anos desde aquele encontro no hospital. treze anos em que perdi a noção se fui a mulher ou a amante. treze anos a pensar numa coisa e na outra. e fui ambas com muita convicção. mas nunca ao mesmo tempo. fui a melhor amante que ele alguma vez teve. tive a disponibilidade de esperar. de viver nos intervalos da vida dele. de planear as fisgas por onde nos escapávamos. e nisso era exímia. uma meia-hora conquistada ao quotidiano sabia a eternidade. até fui sua paciente. ia à consulta para o ter. e nunca me queixei. mas também fui sua mulher. treze anos é muito tempo para viver em aventura. surge um momento em que nos descuidamos e deixamos passar mais de meia-hora. e o quotidiano entra-nos pela eternidade a dentro. soube-me bem esse apoucamento do infinito. confesso que até vesti a roupa de esposa. saíamos para jantar com o Ricardo e com o Humberto. íamos ao restaurante. visitávamos a casa deles. eles vinham jantar a nossa casa. conversávamos muito. o Humberto tinha sido colega da Catarina e do Romeu e perguntava-lhe por eles. o mundo é uma bolota. e o Zé respondia sem hesitação. nunca soube se alguma vez comentou alguma coisa à filha e ao genro. apenas não fui a casa dele. mas que interessava isso. preferia não pensar. e ele dizia-me que já não estava com a Joaninha. era em casa que tinha a roupa. apenas isso. até ficava à noite comigo. que melhor prova de ser mulher e não amante. passava a noite comigo. não ao fim de semana. não como uma escapada ao Alentejo. disfarçada de ida a um congresso. passava a noite comigo. para se levantar de manhã para o trabalho. tomávamos banho. ele fazia a barba. os amantes não partilham os asseios. eu era a mulher. a Joaninha passava a noite sozinha. se calhar ia jantar com amigas. nunca nos cruzámos. pensar nisso bastava-me para ter a certeza que ele era meu. já não pelo fogo da conquista. mas pela força da circunstância. e depois ele desaparecia. eu passava alguns dias à espera. e ele sem nada dizer. tinha então de despir as roupas de mulher. mas em vez de me entregar ao sofrimento ia à consulta. e regressava como amante. andámos nisto treze anos. e não penses que uns momentos foram melhores do que outros. não penses que com o tempo deixei de acreditar. que me entregava com menos certeza. que era menos mulher quando tinha que ser mulher. que era menos amante quando tinha que ser amante. não era assim. nem isso pode ele me apontar. e passado treze anos diz-me que não pode deixar a Joaninha. isso sim foi demais. não podia ser apenas amante. habituei-me a também me imaginar esposa. a vida é rápida. sabes. ainda o fui encontrando uma ou duas vezes nestes últimos seis meses. mas já não é a mesma coisa. sabes. agora o que fica é uma espuma do vai e vem. não é a mesma coisa. acabou. quero viver a minha vida. a vida passa muito depressa. mas estou aqui apenas a falar de mim. desculpa. já te devo estar a aborrecer. mas tinha que te dizer isto. queria que me conhecesses. que soubesses porque é que estou aqui. e tu. fala-me de ti.
In 25 de abril sempre (2018)
Sem comentários:
Enviar um comentário