sábado, 27 de outubro de 2018

O agora

As unhas dos pés pintadas de vermelho, e às vezes penso que estaria melhor se estivesse casada, com um bebé para criar, e penso isto assim, com os pés sobre a areia fina, semienterrados, mas com as unhas a aflorar, emergidas pelos dedos, como pequenas tartarugas, dez minúsculas tartarugas acabadas de sair dos ovos, a despontar por entre a areia quente, atiradas para a frente em direção à água, e penso que como seria vê-lo crescer, com a água que vem, depositando pós dourados sobre o vermelho das unhas, que cada vez se elevam mais, conforme os calcanhares se vão afundando, trazendo os tornozelos ao alcance da vista, e penso como seria o pai do meu filho, penso nele como um homem que sai de manhã para o trabalho, e a água que regressa ao mar, trazendo de volta o rigor do vermelho, e trançando na areia um sulco, como a marca de um rio que desagua no deserto, penso nele e no que ele é capaz, comigo ao seu lado, quando a água que vai chega ao ponto de encontro da pequena crista que apela ao regresso à areia, e penso na casa onde poderíamos viver, penso como poderiam ser aquelas paredes, e a água, depois de uma breve reunião, decide de novo vir lamber a areia fina, baralhando o rasto do rio que se sente traído pela sua própria ideia de deserto, desaparecendo, e penso como seria com o meu homem regressado a casa, ao fim do dia, falando deste e daquele colega, desta e daquela situação, e eu dou uns passos em direção à água que vem, enfiando maliciosamente as unhas na areia, para a obrigar a lamber-me o peito do pé, esbarrando na perna, e penso como seria partilhar esses pequenos sucessos, coisas de pormenor, mas sorvidos pelos dois como pequenos goles de vinho tinto, na varanda, ao entardecer, com o miúdo já lá fora, a brincar sozinho em frente à casa, entretido, enquanto o vai e vem da água já não descobre os pés, que continuo a fixar, deformados pelos reflexos de luz, agito agora os dedos, para desencadear uma tempestade de areia subaquática, e poder vislumbrar os laivos de vermelho, carregado, vistoso, lá dentro, e penso como seria ter a vida toda preenchida, depois do trabalho, pelo filho, pela escola, pelas atividades da tarde, levá-lo daqui para ali, ficar sentada no corredor da piscina, ao fim da tarde, à espera que ele regresse da natação, com a sandes e o sumo dentro do saco, e agora por vezes já não se sente a ondulação, manifesta-se sim lá para trás das costas, aqui tenho a água abaixo dos joelhos, com as pernas lisas da depilação, como se não tivessem poros, pintadas com uma única pincelada pela lâmina a desflorestar o creme, mas concentro-me no vermelho lá ao fundo, e penso no miúdo já crescido, adolescente, quase a entrar para a universidade, imagino como seria alimentar-me com outro pedaço de vida, a juntar ao do marido, claro, viver vários crescimentos numa vida só, começo a retroceder, confrontando com a barriga das pernas a água que quer regressar ao mar, vejo os pés a recuar, pé ante pé, e penso como teria sido com o Gonçalo, agora que as unhas vermelhas voltam à tona de água, e já passaram alguns anos, e agora.

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