Para vocês, só por terem nascido com uma coisa entre as pernas, é tudo muito fácil, andam cheios de confiança, não se questionam se são bonitos ou se são feios, se as pessoas gostam ou não de vocês, nem sequer se preocupam se os vossos amigos são mesmo vossos verdadeiros amigos, para vocês, só por causa de trazerem esse penduricalho dentro das cuecas, está sempre tudo bem, mas nós não somos assim, Gonçalo, percebes, nós temos dúvidas, deitamo-nos, fazemos amor, dormimos descansadas, e no outro dia acordamos com uma sensação esquisita, perguntamo-nos se foi mesmo assim, se não podia ter sido diferente, se não podia ter sido melhor, ou se já foi pior do que a primeira vez, se isto está a crescer ou se está a diminuir, sabes, e o pior é a sensação de estar tudo igual, isso é que atormenta, Gonçalo, e é normal ter essas dúvidas, as coisas mudam à nossa volta, é tudo muito rápido, de forma que mesmo que pareçam não ter mudado passam de facto a ser diferentes, a mesma coisa duas vezes já não é a mesma coisa, Gonçalo, eu sei que tu não tens a culpa, mas é mesmo assim, não faz sentido, eu sei, e não deixa de ser assim por não fazer sentido, adoro a rotina, mas depois aborrece-me, percebes, prefiro ficar em casa, quero uma relação estável, digo-te que quero ficar em casa à noite, só os dois, no sofá, a ver um filme na televisão, mas depois tens que me convidar para sair, sabes, Gonçalo, e tens que insistir, especialmente se eu disser convictamente que não, se parecer satisfeita com a vida de sofá, e quando me conseguires convencer a sair, Gonçalo, chateia-me que depois me convenças todas as noites, sabes, especialmente se me vires a divertir muito por estar com os nossos amigos, a passar a noite toda a fazer e dizer parvoíces com eles, deves então exigir-me ficar em casa, dizer-me que tu é que já não sais, é como esse teu ar ausente, sabes, adoro ver como és capaz de te ausentar, parece que andas no céu, pareces um anjo, não é isso que eu te chamo?, anjozálo, meu anjozálo, mas tens que tomar mais atenção, enerva-me que andes sempre no ar, às vezes, quando estamos a fazer amor e olho para ti a pairar lá em cima, com os olhos fechados, imagino-te na cúpula de uma igreja, arqueado, lá junto dos outros deuses, e admiro-te, Gonçalo, por seres assim, por te alheares, por parecer que nada te preocupa, por seres tão volátil, um corpo com os volumes da pintura, tão lindo, tão cheio de cores, e nesse momento o fazer amor parece-me uma brincadeira de crianças, tão simples e cheio de correrias e gargalhadas, mas depois, irrita-me, Gonçalo, que ali estejas em cima, que sejas tu, que não seja eu, que me ignores, a mim, cá em baixo, sim, tenho inveja, é verdade, Gonçalo, sei que tenho inveja, eu aqui em baixo também sou gente, Gonçalo, porra, sou gente, Gonçalo, e depois sinto vergonha, Gonçalo, e sei que não te devia estar a dizer isto, sinto vergonha Gonçalo, porque te sinto de novo tão bonito lá em cima, e é então que me viro e te peço que me dês palmadas nas nádegas, Gonçalo, mas não te estou a pedir para me bateres, percebes, Gonçalo.
In 25 de abril sempre (2018)
Sem comentários:
Enviar um comentário