domingo, 21 de outubro de 2018

A mãe e o pai Aires

Fomos visitar a mãe e o pai Aires. Se o sobrenome assenta bem ao pai, já na mãe é claro que ele lhe foi entregue por empréstimo. Assim que chegámos, olhou o Gonçalo de alto a baixo, como se inspeciona um carro alugado acabado de retornar. Uma a uma, fez todas as verificações, e de forma tão ostensiva que nem se pode dizer que se pudesse lá identificar algum sinal da sorrateira desconfiança, daquela capaz de gerar um jogo de gato e rato entre avaliador e avaliado. Não, para Alzira, procedimentos são procedimentos, diretos e claros, feitos de uma única frase, onde na maior parte dos casos nem sequer é necessário interpor uma vírgula, e para cuja resposta apenas é necessário um sim ou um não, arrumando as hesitações da existência a meia dúzia de máximas sobejamente demonstradas pelo teste da sobrevivência. Você é que é a Ivone, disse, mais afirmativamente do que interrogativamente, mastigando uma côdea de pão, e como quem começa por conferir o nome. Olhe que isto aqui não é como na Beira, aqui somos todos comunistas, acrescentou para encarrilar a conversa na direção certa e acabar de me tirar as medidas. Depois olhou mais uma vez para o Gonçalo, e quedou-se fitando-o estaticamente enquanto se dirigia a mim. O menino Zé Galvão e menina Joaninha levaram-me o daqui com promessas de um ofício, tipógrafo, ele já me explicou, trabalha lá nos livros e nos jornais, mas mesmo nisso não pense que é muito diferente de nós, também trabalha para os que sabem ler, e agora passam-se seis meses sem o ver. E depois chega-me aqui, assim, magrito. Você não cozinha? Não é que ele alguma vez tenha sido gordo, mas já se sabe como é lá por Lisboa, não ajuda. Enquanto isto o Gonçalo mantinha-se de cabeça ondeando no ar, percorrendo com os olhos o espaço em redor, como um bicho faz uma inspeção a um novo poiso, quiçá procurando atribuir aos locais as funções das futuras necessidades, como se planeia a disposição da mobília numa casa recém adquirida, ainda que com o Gonçalo o ar aéreo fosse sempre um mistério, e eu própria já me tivesse deixado de deitar a adivinhar. Então Zalo, gostas dela, é isso? Perguntou-lhe, continuando a falar para mim. O que mais para aí há é mulheres, filho, mas se gostas de uma está arrumado, arrematou, com a concordância do pai Aires, que se mantinha numa segunda linha, um pouco atrás da mulher, apequenado, diferindo do Gonçalo apenas na altura, mas com o mesmo sorriso monolísico, os cabelos pretos agora manchados de branco, mas desregrados como os do filho, com uma insubmissão que já nem sequer parecia ser com alvo da investida disciplinadora do pente, e formando uma parelha com a mulher, onde a estatura semelhante era transbordada pelo dobro do volume da companheira, entrando-me ambos pelos olhos como Dom Quixote e Sancho Pança, mas como se a lança estivesse agora nas mãos do terra-a-terra e a voz do bom senso fosse silenciosa, uma característica fluida, mais um ar do que uma atitude, plena de um bem fazer despojado da realidade na posse do pai Aires.

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