domingo, 30 de setembro de 2018

Estendal

A corda do estendal bamba, formando uma barriga com o lençol esticado, abanando ao vento do sexto andar, balançando, ameaçando voltear, uma, duas, três vezes, deixando-o enrolado sobre si mesmo, engordando a corda por desigual, com uma ou duas pontas ainda pendentes, olhando cabisbaixas, rendidas, como um avental descaído, soprado pelo vento, moldando-me a cara, erguido, com a costura do bolso como um remendo quadrado sobre o nariz, mais intrometido, projetando-se para trás como duas orelhas, pontiagudas e metediças, rabeando como uma bandeira açoitada, estriando-se da rugosidade da rajada, estalando nas pontas, empolgando-me internamente, como toda uma nação em risco, ainda que entre estas paredes da cozinha impere uma ordem sem sentido, onde arrumo tudo meticulosamente, como se não houvesse lugar onde deixar cair um vestido, e por isso me irrito sempre que vou à janela, e vejo a corda desafiante, que, se num momento de arrelia puxo para fora do sentido, logo salta da roldana do estendal, entalando-se junto ao eixo e emperrando teimosa, ainda que sem grande alarido, mas me obriga a abrir o outro extremo da janela, e a humilhar-me à necessidade de a trazer de volta, com cuidado, ao sulco da roldana, quase sempre obrigando ao acatamento das duas mãos, ou não fosse o peso dos vestidos, e não tenho a coragem sequer de pensar que um dia arranjo isto, talvez fosse apenas uma questão de um aperto, ou de um encurtar da corda, talvez se morasse no primeiro andar, mas aqui do sexto encho-me de algum prurido, pois imagino um descuido, e lá vai o parafuso por aí abaixo, pendulando ao longo da parede, rindo-se para mim o atrevido, se com sorte agarrar a outra ponta, senão tombará de encontro ao chão, com um ténue barulho que certamente só a mim chegará estrondoso, com a cabeça debruçada do sexto andar e os olhos em bico, confusa com qual o efeito dos estragos, se os houve ou não, como quem procura uma agulha num palheiro, e saio de casa numa correria, para retirar do passeio o testemunho do meu desmazelo, se tiver a ventura de ninguém ir a passar, regresso escadas acima sobressaltada, que até carregar no botão do elevador me causa aflição, esperando-me em casa a decisão de deixar a roldana descabelada, ou tentar mais uma vez, mas abandonar-me-á a arte e o empenho, pelo que ficará de novo oscilante. Por isso digo ao Gonçalo, podes, por favor, ver-me as cordas do estendal, e vai ele buscar a caixa da ferramenta, daquelas que como marmitas, de vários tabuleiros e um rico sortido de chaves e parafusos, das mais infinitésimas variações, e que requerem ser escolhidos a dedo, senão mesmo colocados em frente ao olho, e rodados com entendimento na procura de um encaixe mental. E agora, quando penduro algo no estendal, seja vestido ou lençol, fica tão direito que nem se sente o peso sobre o fio, e quando puxo a corda de um lado para o outro, roda doce e sem ruído, e até mesmo dentro da cozinha, onde por vezes deixo tombar o vestido, reina agora alguma desordem que para mim até faz algum sentido.

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