domingo, 9 de setembro de 2018

Cais do Sodré

Porque é que enchemos de escuro o que nos inquieta? A realidade entra-nos pelos olhos adentro, mas, se nos desassossega, se não conseguimos desviar o olhar, vamos reduzindo a intensidade luminosa, até que o negro se intromete entre as partes esbatendo-lhes o recorte, de forma que temos agora que tomar toda a atenção para perceber o que se passa. Por vezes, passa-se uma vida para perceber isto. Por vezes, nem isso chega, e quando fechamos finalmente os olhos vamos inquietos com a escuridão que nos aguarda. Eu tive sorte, pois, quando agora escrevo, neste ano de 2040, aos 80 anos de idade, sei claramente que o que verdadeiramente tememos são as linhas carregadas que traçam as fronteiras entre os corpos. Tinha então dito ao Rui, gostava de ver um bar de putas. O que hesitei na altura para fazer este pedido, mas a curiosidade prevaleceu, agora que me achava senhora do meu corpo. Ele olhou para mim surpreendido, mas rapidamente assumiu o meu pedido como uma tarefa de homem. Já eu, nos dias que se seguiram, deixei-me prender pelo temor do local. Primeiro por mim própria. Como poderia deixar claro que estaria ali apenas para ver e, ao mesmo tempo, a minha presença não fosse ofensiva, pela sua discrepância, nem pudesse suscitar a revolta que se tem com todos os parasitas que procuram usufruir sem pagar. Talvez a forma como fosse vestida pudesse fazer a diferença. Sabia o que envergavam as mulheres que andavam pela avenida da liberdade por alturas da praça da alegria. Já as tinha observado com atenção, as saias curtas que com os sapatos altos faziam tremelicar as pernas esguias da heroína, as cores fortes e a cara esborratada numa espécie de fome exuberante. E, na altura, era muito claro que deveria existir uma linha que marcasse a diferença. Já inclusive me tinha surpreendido a perguntar ao Rui, achas que esta saia me faz muito ordinária. Logo de seguida me envergonhei, pois ele olhou-me longamente, com uma distância que estranhei entre nós. Mas, por mais que fosse o cuidado com a aparência, e que eventualmente encontrasse esse equilíbrio entre a compostura e a descompostura, temia que o escuro do local tornasse as diferenças inúteis, difusas, esborratadas, como as caras das putas. Depois, também temia pelo Rui. Estaria com ele, mas não sabia como seria nos empurrões que haveria no espaço exíguo, onde o seu corpo não seria suficiente para me proteger, como seria num local fora da lei onde o respeito está cheio de contradições e nada do que parece parece. E contudo, quando entrámos naquele bar no cais do Sodré, a sala estava cheia de uma luz branca, florescente, com apenas duas mulheres, ao balcão, escanzeladas, que não tiravam os olhos de nós, nem os três homens feios em mesas baixas de pé, sentados, encostados à parede, e a beber cerveja pela garrafa. Entre nós e eles, uma distância, uma pista circular vazia. Afligi-me se a minha saia estaria demasiado curta, se, naquela distância, as minhas pernas pudessem revelar alguma intenção que eu própria não percebesse e não encontrei outra solução senão semicerrar os olhos, como quando estou com o Rui.

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