domingo, 23 de setembro de 2018

Caído do céu

Um querubim prostrado sobre a cama, com uma cabeleira negra desgrenhada das travessuras, densa, como um emaranhado de silvas formando uma copa frondosa em volta do rosto adormecido, de olhos fechados e lábios entreabertos de inocência, separado do tronco por um pescoço fino, mas quase ausente pela postura ligeiramente dobrada da cabeça para a frente, com os ombros ainda sombreados pela negra áurea, castanhos e de pele lisa, tomados do leve brilho da seda, e os dois omoplatas, quais asas, um pouco empurrados para trás pelo revirar do corpo sobre os braços à frente, agarrando as duas mãos entreabertas, tornadas para cima, fugidas ao face a face com o lençol, expondo as palmas finas em oposição aos cotovelos, apontados para o pénis descansado sobre o outro silvado, envolvendo os testículos, agigantando-os, aninhados entre as pernas bochechudas, troncos de embondeiro fletidos pelos joelhos, aí adelgaçados, voltando carnudos na barriga das pernas antes de chegar aos pés desmesuradamente alongados, de dedos esguios e aparentemente inúteis, não fosse pelo marfim das unhas, baças e lustrosas, especialmente no dedo grande, o do pé esquerdo, aquele que tomba sobre a cama por um desequilíbrio ao nível dos joelhos, até onde ambas as pernas mantiveram a sincronia, lugar em que se despediram uma da outra, a da esquerda afoitada para a frente, a da direita conservando-se atrás, firme sobre o lençol, as duas, como irmãs cúmplices, raízes agarradas ao fundo da cama, dando sustentabilidade ao tronco, como se de facto ele começasse por altura dos joelhos, e o risco que sai de entre as pernas juntas até às nádegas redondas tivesse sido traçado por um pintor renascentista, para dar a sensação de profundidade e volume, numa revigorada explosão de vida, na completa ausência de pelos, um magnífico contraste, realçado pelo percurso de volta ao oásis, atravessando as planuras boleadas da anca, onde foram colocadas carnes para atenuar a bruteza dos ossos, formando ténues dunas, tornando a viagem agradável, e onde repouso de novo os olhos, antes de partir para cima, escalando a parede de abdómen, marmóreo acastanhado, em direção ao umbigo, nada mais do que um ponto apenas, pela lisura do ventre e única referência no horizonte, onde o corpo decidiu colocar o seu centro, vagamente emproado e onde descanso de novo, recostada na pequena encosta que prepara a cratera, a que faço uma breve visita antes de rumar com os olhos de novo a norte, passando debaixo do arco formado pelo cruzar dos braços, por alturas dos pulsos, e sob os quais passa um risco ladeado por duas suaves encostas, cada uma delas encimadas pelos respetivos mamilos, disputando a senhoria do ribeiro, que nasce da cascata formada pelo queixo, debitando uma água pura, que nasce do rosto tranquilo, onde as narinas dilatam pausadamente, para alimentar de ar um Gonçalo Aires, quebrantado, deitado no meu leito, como um anjo caído do céu, como um copo de água límpida, que levo aos lábios para apagar os sabores da experiência, sentada na cadeira em frente à cama.

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