sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Subir às árvores

Não te quero ver em cima das árvores, Ivone. Mas o Zé e o Zé Joaquim podem, replico eu. Uma menina não sobe às árvores, esclarece o meu pai. Uma menina não sobe às árvores, é a primeira coisa que me ocorre sempre que vejo o Zé, ou o Zé Joaquim, empoleirados de um ramo, a baloiçar sobre a barriga, com a folhagem a abanar em círculos e uma ou outra folha vem em direção ao chão, preparando-se para darem mais uma reviravolta, ou então puxarem as pernas para cima e continuarem para o próximo ramo. Eh, Joaquim, os teus rebentos saíram uns bons trepadores, diz o ti João em tom elogioso, enquanto passa com a junta dos bois. Uma menina não sobe às árvores, repito para mim mesma, e deixo-me ficar a vê-los na copa a tentarem chegar ao ramo mais alto, aquele que ameaça deixar de apontar para cima com o peso dos rapazes, agarrados a ele com as pernas apertadas e as mãos envolvendo-o, como uma bruxa numa vassoura a concentrar-se para um lançamento na vertical em direção à lua. Uma menina não sobe às árvores, e fico cá em baixo à espera que regressem, para poder passar as mãos pelos cabelos do Zé Joaquim, à cata de pedaços de raminhos e folhas que ele colhe sem querer, naquele trepar às cegas, feito de fé e vontade, em que a cabeça vai à frente, desbravando, empurrando os pequenos ramos, obrigando-os a afastar-se, e sentir o cheiro a verde e madeira fresca que se solta dos cabelos dele. O que é que se vê lá de cima?, pergunto-lhes, mas os rapazes não estão para este tipo de conversa, ficam-se por onde até conseguiram chegar e uma vez alcançado o objetivo voltam com a mesma pressa com que subiram. Não fosse pelos odores e não saberia o que lhes ia na cabeça. O que é que vai na cabeça das pessoas? É assim que me entretenho, enquanto os fico a ver deambular lá por cima, a inventarem metas, ora para chegar ao ponto mais alto, ora para atingir o ramo que está mais afastado, aquele que para lá chegar obriga a fazer um x de pernas e braços. Uma menina não sobe às árvores, mas eu fiz um pacto secreto com uma laranjeira frondosa que chega para esconder duas ou três meninas. Subo-a com muito cuidado, colocando os pés nos troncos de madeira preta em direção a um ramo suficientemente alto para não ser notada por quem passa por baixo. Apenas uma vez fui mais acima, quando tive a certeza que ninguém estava a ver, tirei a cabeça para fora da copa, olhei em volta e não me recordo do que vi, imaginei sim que o meu corpo estava vestido com a copa da laranjeira, um lindo vestido de escamas carregadas de verde, em tons oscilantes ao vento, que me caía sobre os ombros até lá abaixo, ao chão, onde está a caldeira de terra molhada. Não sei o que vai na cabeça das pessoas, sento-me no meu ramo esperando que as oscilações da subida passem e tudo fique como se eu lá não estivesse, e então vejo passar os meus irmãos, primeiro um, e depois o outro à sua procura. Surpreendem-me as cabeças a andar sobre os ombros, de um lado para o outro. O que é que vai na cabeça das pessoas? Uma menina não sobe às árvores, diz o meu pai, porque uma menina não tira os pés do chão.

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