terça-feira, 7 de agosto de 2018

Sexta Lição – Comezaina de fartar

Desculpem-me, meus queridos meninos, se na última lição me tomei de algumas liberdades, mas é assim o estômago, quando cheio leva-nos à boca o que então nos parecem ser apenas verdades, e mais vos digo, se tentes um inimigo, enfardai-o, avinhai-o, e dai-lhe conversa até que lá dentro tudo comece a rebolar, duas voltas para um lado, outras duas para o outro, que depois lhe virá um torpor, uma bonomia, que de certeza o levará a uma ou duas pitadas de filosofia. E repousarão eles, descansados, que a natureza é um gigantesco paradoxo, a barriga repleta enche-os de paz, de acalmia, e já nada parece ser um disparate, levando-os a baixar a guarda, onde facilmente entra uma faca, disfarçada de conhaque. Para ajudar à digestão, diz-se, ironia das ironias. Mas façamo-nos à vida, que Roma e Pavia não se fizeram num dia, e a quinta lição foi um percalço de contemplação, e ainda tendes muito de aprender se alguma coisa quereis ser para além de crescer, por isso hoje vos venho falar, de um facto que é prenhe a todo o ser vivo, por grande e complexa que seja a porção ingerida, no fim, tudo se faz no bacio. E por muito estranho vos pareça, é tudo por causa de um amor universal, a uma meia dúzia de moléculas, bonitinhas, perfeitinhas, que de mãozinhas dadas rodopiam muito bem aprumadinhas, e se pensastes que nos comemos uns aos outros por gostar de seres vivos, estais tão enganados como os homens das cavernas, que pensavam incorporar a alma dos seres que comiam, e da digestão nada percebiam. Esta é a ciência da coisa, se alguém quereis comer, nada do engrandecer, como fazia o australopiteco, habituado a agradecer a refeição de cada dia, mas deveis apequenar, pois essa é a função da digestão, e se for necessário de todas as poções vos deveis apetrechar. Ah, vós, alunos mais preocupados e prestes em aprender, já deveis estar a ver do que vos vou falar. É do fígado, pois claro, e do pâncreas, também, essas duas fontes de humores capazes de fazer do ser mais completo um concentrado alimentar, tão simples e inofensivo, que até o padre mais santo é capaz de o tomar, como a pílula que alimenta o astronauta quando divaga pelo ar. Mas não digo que em pesadelos, não lhe venha um terror ao baixo ventre, e se imagine, como o australopiteco, com um todo indivisível em partes, debatendo-se na barriga. Por isso, para o bom trato intestinal, e evitar essa vozinha da consciência, temos esses dois entes segregadores que tratam de minimizar todo o escolho a bem da absorção. Aprendei mais uma vez meus meninos, uma regra de ouro, há neste mundo quem tenha muitos pruridos no que está disposto a ingerir, mas são também eles os melhores certificadores da moral alimentar. Levai-lhes por isso a comidinha, toda ela partidinha, se possível à francesa, num grande asado prato onde predomine o branco, assim, sentirão paz ainda antes do ingerido, que a pequenez do conteúdo de certeza os fará sorrir sem rezar, e o vazio das bordas sonhar com as imensidões do ar, então podeis ter a certeza que quando se virem estes santos homens a manjar logo outros se lhes ajuntarão e será uma comezaina de fartar.

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