Bom dia, para mais um dia, bem-vindos a esta lição, na qual temos um convidado surpresa de quem todos já ouviram falar de antemão. Como não carece de apresentações, dou-lhe por isso já a palavra, que do que irá falar sabe ele de sobra. Bom dia, não é meu costume aceitar estes convites, e andar aqui por fora, pois por muito se afirme que não vivo nas melhores condições, é lá onde me sinto bem aprumado e disposto para todas as ações. Mas já estou acostumado, a ser muito aviltado, sendo bem sabedor que o próprio nome que me deram dava para escrever ao provedor. Pois então, onde é que já se viu tamanha incoerência, se sou solitária como posso ser bicha também, só se for na imaginação, que gente que assim fala, com certeza está tão mal informada, e que efabula com desdém. Também vós me olhais enojados, e não deve ser pelo meu aspeto, que é transparente como a límpida água, mas sobre o que ouvistes a meu respeito. Mas não vim aqui para tirar teimas, e eu próprio me surpreendo ao olhar-vos assim inteirinhos por fora, que tão diferentes sois por dentro. De certeza que hoje de manhã, depois do cocó, a vossa mãe vos disse para lavardes as mãos e irdes beber o leitinho, com um pão com manteiga, e talvez algum docinho. Como sei eu isto, perguntais-vos, pois mais sei eu, eu vos digo, que à hora do almoço deveis insistir no bife bem passado, que não gosta de concorrência quem já tem um negócio bem montado. Como vedes sou solitária de vocação e só bicha de cognome, mas como já tive oportunidade de vos chamar à atenção, o a final é da maldade do costume. Bom, bom, lá de novo me descaí, que nisso devo ser muito cuidadosa, pois no lugar onde vivo é mortal escorregar pela escada. Estou eu para aqui a falar, destas banalidades, mas é porque ainda não me sinto em mim, com o que aqui vi. Olha, olha, como vós sois, bem podia ter puxado pela carola, que nunca teria concebido serdes assim tão secos, e redondinhos por fora. Sei bem que passais a vida, toda numa lufa-lufa, mas lá dentro, ao fim do dia, tudo acaba nas mesmas moléculas agrupadas como uma uva. Como dizia o grande Voltaire, que tenho o atrevimento de citar, com o pouco francês que aprendi de um cozinheiro, que nem sequer uma estrela Michelin tinha, je vois près de chez moi Genève en feu avec des querelles pour rien, et je ri encore. Disse-me o vosso professor que, se possível, deveria haver uma lição na lição, e que se fosse eu capaz, uma deveria deixar, vinda de lá dentro, onde impera a escuridão. Talvez como resumo, posso ajuntar ao que já sabeis, que embora aqui sejam muitas as formas, lá dentro tudo se esmiúça e dissolve, e se de gostos me interrogais, mais não vos posso dizer, que aos critérios cá de fora, tudo lá chega muito sensaborão. Pelo menos é assim que eu interpreto o dito do iluminado Voltaire, que passou a vida toda cá fora, e de lá dentro pouco sabia, mas se calhar suspeitava que rir era o melhor remédio para a azia. Eu próprio o tomo, sempre que me chega um bife da vazia, armado em carapau de corrida e pronto para a refrega.
In 25 de abril sempre (2018)
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