Contactaram-me os vossos encarregados preocupados com a educação, dizem-me que os assuntos abordados são exagerados no que diz respeito à digestão. E que em apenas quatro lições já cobrimos mais matéria, do que aquela que é necessária para descrever com exatidão, o que passa na curta viagem da boca ao..., interrompi-os eu, que, para além da boca, pouco mais do que a garganta e o esófago cobrimos e que se já lá vão tantas lições é porque cada assunto obriga à exposição de um outro, ainda que não vos seja óbvio a ele estar aparentado. Mas insistem os encarregados que o importante é saber o que pode sair nas provas, que a função do educador é preparar para corretamente se responder à avaliação. Respondi-lhes eu, tentando sustentar, que aprender é algo que nos deve levar a mudar de lugar. Mas os vossos responsáveis insistem em saber se o que aqui se ensina tem valor a valer. Bem lhes disse que vos iria então falar de Lucrécio, pois outro não conheço cuja pedagogia tenha maior préstimo. Mas continuam em questionar se com o que aprendestes ireis vingar, porque na vida vos distinguireis com aquilo que vireis a assimilar. Deixei-os com as suas queixas, que com eles já nada há a fazer, assim apoquentados continuarão, que desbravar mentalidades tão bem articuladas não é a minha função. É a vocês que me dedico, em desespero de causa, que tendes a mente fresca e airosa, já que os encarregados vêm naturalmente munidos com único plano para o fruto da sua fornicação. Bem sei que é da natureza das coisas, mas como sou teimoso, como já ireis ver, não resisto em vos trazer hoje um assunto para o qual não se desvenda resposta certa. Lanço já aqui a pergunta, que nunca pensei a vir a fazer tão depressa na aprendizagem, mas sou empurrado pelo rio contra esta margem. Pergunto-vos então, o que acontece à digestão do bovino durante a longa, e aparente, letargia do ofídio? Quereis aventar uma resposta? Pois é, pois é, esse é o problema da aprendizagem toda focada na avaliação, apenas estais dispostos a compreender aquilo que tem solução. Ou, perguntando de forma mais prosaica, porque é que nunca indagamos a nossa digestão, ainda que questionemos a do cobrão? Ou intentando de uma terceira forma, a pergunta para a qual não há resposta precisa, porque é que digerimos os outros com satisfação e fugimos a sete pés da nossa própria dissolução? Aqui estão três diferentes questões para as quais há as mesmas respostas imprecisas, incorretas e amargosas. Mas não quero terminar sem uma lição vos dar, para que a quinta não fique sem lugar no panteão da recordação. Digere a cobra com igual regalo o bovino que regurgita a folhagem satisfeito pela textura tenra, verde e aguada, de sabores acres soltados pelo rasgar da sua língua ponteada, e andamos nós a alvitrar qual deles tem razão, ignorando que ambos terminam na mesma decomposição, e que se quereis entender a digestão tereis que estudar esses átomos básicos em que cada coisa se vai tornar, por isso vos digo, e repito, se for necessário, que não há estudo sem resposta como o da digestão.
In 25 de abril sempre (2018)
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