quarta-feira, 15 de agosto de 2018

As sandálias

Mãe, tenho os pés apertados. Empurro com força o dedão grande contra o branco da sandália, sentindo a unha incomodada, e vejo-o revelar-se acima da linha marcada pelos pontos da cosedura. Mãe, posso descalçar as sandálias. A mãe tem o irmãozinho a sair-lhe do peito, estirado para trás, expondo-lhe a cabeça descoberta, olhando para mim com a cara vermelha. A sandália branca contrasta com a tábua de madeira cheia de dentadas, que ladeia a base da pia batismal de pedra. O padrinho coloca-me as mãos nos ombros e sussurra-me aos ouvidos, agora está caladinha que depois comes uma broa de leite. Mas dói-me o pé, e não é só um, são os dois. E é toda só para ti, ouço muito baixinho, enquanto retiro os olhos do chão e dou com o Cristo na cruz a fitar-me desconsolado. Posso descalçar, insisto tão baixinho que se calhar ninguém ouviu, fixando o olhar nos pés pregados. Eu bem avisei a mãe, quando fomos a casa da Dona Josefa pedir os sapatos emprestados, estão apertados. Foi o senhor padre que disse, a menina Ivone até pode vir calçada com uns sapatinhos brancos, que a Dona Josefa é uma santa senhora que de certeza lhe pode arranjar uns sapatos da filha mais nova. Tem os pés um sobre o outro como se tivesse frio, os dedos do de cima abrigando os debaixo, e eu levo de novo os olhos às sandálias, à procura do fuzilhão que prende a correia à fivela, ainda não, ainda não está a fazer sair sangue. Está com sorte o menino José Joaquim, disse a Dona Josefa, o batismo ainda vai ser em latim, o padre Pedro já recebeu ordens para no próximo mês passar a dizer a missa em português. O pai explicou-lhe tudo bem explicado, José, do pai do menino Jesus, e Joaquim, do pai do José Joaquim. Mas vamos chamar-lhe José ou Joaquim, perguntei-lhe eu? Se calhar Zé Joaquim, que cá em casa eu já sou Joaquim e o teu irmão já é José. A correia também me magoa, atravessa de um lado ao outro sobre o dorso do pé apertado à frente e atrás, sufocando-lhe a rebelião. Muito bom homem o padre Pedro, por ele continuava a dizer a missa em latim, mas. Procuro os pés do padre, são pretos os sapatos, esborratados com o pó da ida ao cemitério para o enterro da Ti Dora, todos rodados, solas altas, como uns tamancos de cabedal, mas não ficam bem com a cor dos saiotes verdes que traz vestidos. Deve ser porque as vestes quase lhe chegam ao chão que não tem de trazer uns de outra cor. Já eu, estou toda de branco, as meias brancas até aos joelhos e o vestido branco, que a Dona Josefa leva estas coisas a sério, e se leva os sapatos porque não levar o vestidinho e as meias também. Lá em cima o Zé Joaquim começa a chorar quando a água lhe escorre pela cabeça. Eu aproveito para colocar um pé sobre o outro, sentindo o nó do fuzilhão na fivela pela força do peso, pressiono com mais força como se tentasse aliviar a dor. O padre Pedro diz qualquer coisa em latim, eu desequilibro-me e agarro-me às suas vestes obrigando-o a dar um passinho para o lado. Quietinha Ivone, diz o meu pai com a vela acesa ao lado da minha mãe. O padre Pedro interrompe o latim e passa-me a mão pela cabeça. Depois comes uma broa de leite, diz.

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