Porque é que queres ir para Lisboa, filha? Podes ficar em Castelo Branco, lá também podes tirar o curso de enfermagem. Já sabia que ele iria dizer isso, e sim, porque não continuar em Castelo Branco. Já lá fiz o liceu e havendo o curso de enfermagem seria o mais natural, até para não falar da questão económica. E não podia dizer que não tivesse gostado dos três anos que lá tinha passado. Gostava das ruas direitas, da avenida do liceu, projetada com uma largueza a pensar no futuro, não fosse desembocar na estação. Parece ter sido pensada mais como um canal, de uma prodigalidade local, onde os barcos podem velejar para a frente a para trás, entre a estação e a câmara, mas não com o verdadeiro propósito de dar resposta a um fluxo de tráfego consonante com a sua dimensão. E claro que há um charme nessa representação, uns pequenos Champs-Élysées empedrados, ladeados de árvores e bancos, um pequeno charme pela sua quietude, resultante da ausência de automóveis. Gosto de lá me sentar um pouco à tarde, quando as árvores já estão repletas de folhas frescas, nuns bancos pintados de verde gretado, desenhados como a avenida, com as costas reclinadas, com o assento a rasar o chão, enfileirados com as árvores, mais para se estar do que para descansar, sim, que não é uma terra onde haja jornadas a pé que requeiram descanso. E depois há todas as outras ruas que vão desembocar na avenida do liceu, canais menores que se precipitam neste canal maior, debitando umas poucas pessoas, poucas, claro, mas certas, nas horas e nas feições, daí o seu charme, variando de roupa, conforme a estação do ano, e, suponho eu, se por ali nos prolongarmos veremos como crescem e envelhecem, mas sem nunca sabermos o seu nome, se não quisermos perguntar, claro, embora consigamos relacionar pais com filhos, deve ser isto que distingue uma cidade de uma aldeia, suponho. Tem alguma razão o meu pai, quando pergunta, porque é que queres ir para Lisboa, filha? Aqui a escola de enfermagem fica no outro lado da cidade, são dez minutos a pé do quarto onde estou hospedada, um percurso rápido até à rotunda do hospital, passando pelo liceu antigo, ao lado do jardim. Um jardim todo o oposto da avenida do liceu, apertado em volta de pequenos tanques talhados em granito e com repuxos débeis, debitando o menor fluxo de água necessário para um repuxo ser um repuxo, trançando pequenos arcos, decompondo-se em gotas na descida, devido à sua brandura, que fazem um ruído miudinho, de salpico, quando caem na água, e aqui não há onde sentar, como na avenida, parece antes ter sido desenhado para as sebes que o habitam, formando um labirinto de corredores, e para ser vivido de fora, dos paços episcopais. E do outro lado, o parque, onde vão as pessoas, dividido em duas partes bem distintas, uma aberta, à francesa, com canteiros largos e bancos onde sentar, imagino ali senhoras de sombrinhas e vestidos compridos, e a outra de árvores fechadas, num simulacro de bosque. Porque é que queres ir para Lisboa, filha? E eu compreendo o meu pai.
In 25 de abril sempre (2018)
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