quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Gira-discos

Naquela noite de verão, depois de jantar, quando passei em frente da casa do povo, abrandei o passo para ouvir a música envolta de luz amarela que escapava pela porta. Quando depois, ao deitar, recordei o percurso, feito do atravessar da aldeia de lés a lés, do bebedouro das vacas até ao cemitério, com o calor da noite e o cantar dos grilos, essa parte surgiu-me num ralenti sem rival, destronando mesmo os momentos que idealizava quando ao sair de casa fechava atrás de mim o rugoso portão de ferro forjado preto, dizendo para os que ficavam, já volto. Ansiava chegar junto do bebedoiro, para me sentar com as outras raparigas na borda de granito e ficarmos a falar baixinho para não incomodar o ligeiro borbulhar da água a cair da bica, galgando as paredes do tanque e encharcando a terra com o cheiro da humidade na noite quente de verão. Mas agora, a imagem da porta aberta a verter de luz, das duas ou três oliveiras em frente com as copas iluminadas por baixo e o topo a desvanecer-se no céu escuro, dando a ideia que não tinham fim, conjuntamente com o ecoar de uma música melodiosa, cantada em francês, é o que me envolve quando me deito na minha cama com a janela aberta ao silêncio lá de fora. Gira-discos, foi o que me disseram que tocava aquela música e quem o trouxe foi um neto do José Manolo, que é de Lisboa. Sabia quem era, era o Carlos, que costumava sair com o grupo do meu irmão mais velho, quando visitava a aldeia durante o mês de agosto. Recordava um miúdo um pouco enfezado, com quem tinha trocado uma ou duas palavras quando vinha perguntar pelo Zé, mas quando no dia seguinte o procurei junto ao adro da igreja, onde os rapazes se juntavam ao fim da tarde, quase não o reconhecia. Tinha crescido. Tinha o cabelo comprido, liso, loiro, caindo-lhe sobre os ombros, e estava encostado à parede sorrindo com uma segurança que não lhe revia nas débeis batidas no portão. Não tive coragem de me aproximar, até porque era uma rapariga e miúda, e aquela parede estava atribuída aos rapazes, que a nós era permitido passar por ali, quanto muito abrandar um pouco o passo de forma a se trocarem alguns olhares de avaliação mútua, mas não havia conversa para ser trocada, a não ser a ditada pela necessidade, de irmão para irmão, de primo para primo, porém necessariamente curta e feita de umas poucas de instruções, sobre horas e obrigações, ditadas pelos mais velhos. Por isso, quando poucos dias depois soube que o Carlos tinha regressado a Lisboa, resolvi apoderar-me daquele sorriso, que não era meu, e guardá-lo com a paciência de quem vive numa aldeia, onde tudo acontece devagar, e o inesperado é um acontecimento longamente preparado. Agora, quando saio depois de jantar, acontece aborrecer-me junto ao bebedoiro, não prestar atenção ao sussurrar das minhas amigas no escuro, nem ao borbulhar da água. Como funciona um gira-discos?, deixei escapar uma noite, irrefletidamente, em voz alta, quando passávamos em frente à casa do povo que se encontrava às escuras e de porta fechada.

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