domingo, 19 de agosto de 2018

Bicho caldeireiro

Lá para os lados da mina anda um lagartão façanhudo, de dois palmos de comprimento e um verde claro escamudo, que, de gordo que é, chicoteia a cauda com o movimento das patas traseiras, para arrastar a barriga cheia de escaravelhos. Mas do que ele gosta mesmo sei eu, é de libelinhas, que as apanha quando se dirigem para a frescura da mina, estando ele sobre a parede quente do sol, estendendo o corpo preguiçoso sobre os musgos que nesta altura do ano deixaram de ser barbudos para cobrirem a pedra de uma rala pelugem amarela castanha vermelha. Revolta-me ver a moleza do lagartão, que enquanto se enche de sol, sem um único movimento, a não ser o abrir da boca e o estender da língua, apanha as libelinhas que vão na ânsia da frescura. E revolta-me mais, revolta-me o ar senhorio com que se veste esticando o pescoço e exibindo o papo, como se fosse dono da pedra, já para não dizer da mina, que é do meu pai e da minha mãe. Já me queixei, que ele anda por ali, perto da água que bebemos, aquela que é a mais afamada, que até o avô Pereira, pouco antes de partir, quando lhe apresentaram a canja de galinha, disse de uma forma que não percebi ninguém levar a mal, foda-se, quero é uma pouca d’água da mina. Não percebo o descanso do meu pai, que me respondeu não gostar o sardão de água mas sim de libelinhas, e que por nada deste mundo meteria as fuças onde nós mergulhamos a bilha. A sua desatenção não me deixa nada descansada e por isso frequentemente dou por mim para os lados do sobreiral, debaixo do qual se enfia a mina, sem uma razão que não seja certificar-me que a razão do meu temor ainda por ali habita. E temo, que da minha imprudência já o lagartão se fez notado, e me fita enquanto se entende ao sol com uns olhos calmos e frios de bicho que não tem sangue quente. Dia após dia, cresce em mim a certeza que já zomba comigo pois não há na minha aparência um bom senso, que não vou buscar água, nem levar ou trazer cabras. Encho-me por isso de raiva quanto mais insisto em procurar o lagartão de língua comprida. E digo-vos, que estes bichos, a única coisa que lhes vai pela cabeça é saberem quem manda, e por isso, de sempre me ficar pela sobreira, paralisada de avançar em direção aos meus pertences, o convenceram de ser o dono da pedra onde perneia. Durmo mal, de noite e de dia, que tenho de fazer alguma coisa. Encho-me por isso de ganas e dirijo-me a ele para reclamar o que é meu de direito. Oh, bicho caldeireiro, bicho caldeireiro, insulto-o alto e a bom som, enquanto vou determinada a correr com ele da pedra que é minha. Ele, fita-me de cima a baixo, como se me conhecesse por dentro, alçando levemente a cabeça. Bicho caldeireiro grito uma vez mais, procurando humilhá-lo. Então não é que, de repente, sai da pedra, mas na minha direção, de um salto tão alto, que vou numa correria por todos os caminhos, só parando chegando a casa. Mãe, digo com o coração aos saltos, o lagartão da mina atirou-se a mim, que parecia que me queria subir pelas pernas acima. Mostrou, agora sim, preocupação a minha mãe, que lhe olhou seriamente e me disse, isso não, minha filha.

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