domingo, 26 de agosto de 2018

Beijo

Por muito que o tivesse imaginado, e imaginei de facto, o ficar em bicos dos pés faz toda a diferença. A contração que atravessa o corpo desemboca num grito que nos faz abrir a boca. É uma posição que vive do primeiro impulso, aquele que nos projeta para cima, e esse movimento tem elegância, pela sua elevação, pelo estender sincronizado dos músculos, como o alçar do pescoço de um cisne. Mas, se no momento de maior esplendor, aquele em que se concretiza a ausência de peso, aquele em que estamos completamente pendentes, se não houver ninguém para nos agarrar, então o regresso ao chão faz-se com pesar, com um esvaecimento nos joelhos. Deste conhecimento se fazem as cautelas, os refreios, as hesitações, que não são mais do que o treino muscular do outro, como as chicotadas que se dão no ar em frente a um leão, para garantir que no momento certo ele abre a boca e ruge, não nos deixando ficar mal. E por muito estranho pareça, isso é algo que se sabe sem nunca ninguém nos ter ensinado. Não recordo que a minha mãe alguma vez me o tenha dito, pelo menos nestes termos. Claro que há sempre um aviso subliminar, ancestral, aquele que se tem com todo o valor que pode ser roubado, guarda-te, filha. Mas também tem um reverso que me incomodava, aquele que vi frequentemente e para o qual me temi destinada, tudo o que tem valor tem um preço e tudo o que tem um preço se pode vender. Nasci, pois, num tempo em que tive que aprender como viver a minha própria vida sem me dar ao desbarato. Não sei agora se o consegui ou não, nem sequer se esta não será uma falsa questão, como todas as questões que sobrecarregam aqueles que atravessam um período de mudança, onde no caminhar para a outra margem se arrasta às costas aquela de onde se vem, comprimindo as águas do rio, amplificando o caudal, tornando-o intransponível, de forma que toda a vida é só travessia. Mas isso pouco interessa agora, deixo-o a vós, conforme fordes cruzando esta história, que nunca mais de mim voltareis a ouvir tais reflexões. Passaram dois verões até voltar a ver o Carlos. Era o movimento revolucionário, e as suas urgências, dizia o pai, com uma ironia entristecida, mas como se ele tivesse de facto fugido de casa. Quando regressou foi sem os pais, ainda não era agosto, instalou-se na casa do avô, e eu achei-o ainda mais belo. O cabelo comprido era agora revolto, como se à ausência da tesoura se tivesse juntado o pente. Tinha deixado de ser um menino bonito para passar a ser um homem bonito. Incentivei o meu irmão Zé a reavivar a amizade com ele. Não tardou muito que passássemos as tardes em volta do gira-discos. Vesti-me com uma curiosidade dissimulada pela música, acerca da qual ia fazendo perguntas, pois gostava de o ouvir falar. Até que um dia achei que tinha chegado o momento. Estávamos sós, ele tinha acabado de colocar um disco e quando se voltou já eu estava junto a ele. Elevei-me na ponta dos pés, com os olhos meio fechados, mas ele agarrou-me pelos ombros e trouxe-me de volta ao chão, com um sorriso e sem uma palavra de justificação.

Sem comentários:

Enviar um comentário