quinta-feira, 23 de agosto de 2018

25 de abril de 74

Na aldeia, o 25 de abril de 1974 não aconteceu na data marcada. No dia propriamente dito, recordo o meu pai comentar, aconteceu qualquer coisa lá para Lisboa. Depois andou-se num caldo morno de dizeres desgarrados em que nada era dado como certo. Comentava-se que teria sido coisa de uns guedelhudos, uns biteles. Foi apenas meses mais tarde que sentimos o seu verdadeiro impacto, pelo menos para nós, as mulheres, que os homens, esses, começaram a revelar alguma perturbação mais cedo, pois começou a ser frequente na taberna ouvir-se gritar, o que é meu é meu e o que é teu é teu, porra. Mas foi com uma improvisação pouco digna das linhas programáticas de um movimento revolucionário baseado na razão, quando o padre Fernando desapareceu e se ouviram uns rumores que se tinha juntado a uma mulher, com quem, parece, se veio a casar e teve filhos. Para a Dona Josefa, aquilo não a tinha surpreendido, e até trazia um gostinho a vitória, que não gostava do padre Fernando, que não a tratava, nem ouvia, como o padre Pedro, esse sim, poderia até ter filhos, que ela até sabia que os tinha e cuidou bem deles, que não ficaram mal na vida no dia em que entregou a alma ao todo-poderoso, mas abandonar a Igreja, isso é que era coisa que o padre Pedro nunca faria. Já para mim, percebo agora, o impacto foi outro, foi o de um mundo novo que se ia desdobrando conforme mais conhecimento adquiria acerca dos factos e onde de uma forma verdadeiramente revolucionária o particular se ia conjugando com o geral, numa constelação de relações de causa e efeito que, para quem tinha aquela idade, foi o esplendoroso manifestar de uma dialética, onde por um maravilhoso acaso se uniu o imperativo lógico com o hormonal, e que me havia catapultar para fora do que até ai estava claramente definido como o meu destino. Primeiro, e ainda antes da fuga do padre Fernando, foi a revelação que tudo começou por uma música, tocada durante a noite, num gira-discos, em Lisboa. E que interessa agora que essa escassa informação despoletasse uma imaginação pequeno-burguesa, romântica, onde tudo tinha sido obra do Carlos, que colocou o seu gira-discos a tocar alguma música de pendor francês numa noite de Lisboa, cheia de sossegos e bebedouros, fazendo sair à rua muitos homens de cabelos compridos, loiros e pelos ombros, como os dele. Essa foi a minha primeira salvação, a salvação do reavivar do desejo, que por muito forte que sejam as imagens que se nos instalem no espírito, já lá iam oito meses desde a tarde de agosto no adro da igreja. E depois, foi a notícia da rebeldia do padre Fernando, que me dizia mais do que qualquer outra, por próxima, espacial e mentalmente. Sim, mentalmente, era alguém que usava saias que tinha saído da aldeia para fazer a única coisa que não podia ter feito, despi-las. É certo que nessa altura isto não me ocorreu desta forma, mas é assim a verdadeira educação, como a tortura chinesa, ministrada pingo a pingo. Todos os dias te deitas com uma minúscula porção e um dia acordas como uma revolucionária numa aldeia onde a Dona Josefa te parece dinossauro.

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