Depois da segunda lição vem a terceira, não há que enganar, na narração desta viagem, até ao final, o dobrar de muitos esfíncteres ireis testemunhar. Pois, meus meninos, espero eu, de vós a máxima correção, uma vez que, por cada erro que no futuro vireis a dar, serei eu o patrono da vossa desatenção. Mas vamos ao corpo do tema de hoje, todo ele feito de safanões, que quer se queira, sim ou não, agora que se passou a epiglote, nada mais se lhe pode desejar que muita, muita, sorte. Os movimentos são todos peristálticos, levando a comida amarfalhada, quer se faça o pino, sim ou não, em direção ao esfíncter esofágico inferior, nome comprido e anunciador de infortúnios, por onde muitas vezes escapa um ardor, uma azia, um fedor, que nos faz recuar importunados. Mas, coitados dos que já lá estão, que num único sentido vão, em direção ao desconhecido, que tudo o que por aí passou quase nunca regressou, a não ser azedo e indigno. Por isso de nada nos serve o que pudesse contar, uma vez que vem possuído por um ácido que nos leva a duvidar de ali viver aquele que ainda não há muito apreciámos. E, vamos então ao cerne da lição, da mais profunda humanidade, que vos descreve como este bicho se entretém, cantando e dançando, quando se aproxima da infelicidade. Estranho comportamento esse, mas uma vez que já vão todos no mesmo barco, esquecem até como foram recrutados, e o que deixaram antes de ingressarem no mar alto, ovas, crias, cópulas, e agora, filhos desta aflição, matraqueiam com os pés o chão, enquanto vão rodopiando em direção ao desalumiado. Eis, pois, o que tendes de aprender, se quereis ser líderes, senhores, capazes de traçar destinos, que no mundo andam apenas dois seres, os que determinam e os determinados. Prestai, pois, a máxima atenção, que o que agora vou dizer é fundamental, então não é que em vez de questionarem a sua missão, para a qual foram astutamente alistados, vestem com redobrada emoção a useira roupagem, e prometem continuada vassalagem. É amor, só pode ser, até vós exclamais senhores, com que perfeição fez Deus a sua obra, que tudo aquilo que lhe vestimos lhe assenta com primor. E da dança apenas posso dizer, que graças a Deus que não são escoceses, pois seria muito atrevimento agitar assim os penduricalhos. De braços entendidos, fazem tudo certinho, no convés da embarcação, assim foram ensinados, estes marinheiros dos três costados. Um dois três, e repete, um dois três, que tudo somado já é um número bem salgado. Quero isto muito bem contado, que não há dança sem marcação, cada passo bem ensaiado, que à vista do estertor, enchem-se de furor os finados a bem de seu patrão. Portanto aprendei meus meninos, mais esta lição, que eu não duro sempre, basta financiares a embarcação que do resto trata a corrente. Dancem, dancem, em direção à ligeira rugosidade, que ela logo se abrirá e vos revelará o que ireis aprender na próxima lição. Esta por aqui fica singela, que de viagem apenas se tratou, comprimida certamente, ao sabor da tremenda torrente, atentai, portanto, que basta montar casa a amante para terdes um segundo lar.
In 25 de abril sempre (2018)
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