Sendo peixe, prefiro-o grelhado, tostadinho, mas não demasiado seco, não, que gosto de lhe meter a faca junto à espinha e fazer-lhe saltar as carnes baforentas, que o danado já não perneia escorregadio, mas ajeita-se côncavo ao olhar, atiçando-nos com uma ponta de superfície, fumegante, branca e entreaberta, enquanto o resto se alonga para baixo, em direção ao corpo esparramado no prato, enlevado por duas ou três batatinhas reboliças, aperaltadas por umas flores de brócolos. Um peixe com os vapores, sim. Bem que o escuto, coitado, que agora que se vê em prato limpo, dá-se ares de alguma importância e tuteia-me, a mim, que o encaro com garfo e faca na mão, mais em posse de ourives do que com disposição guerreira. Eh pá, já viste, diz-me naturalmente, sem desaforo, mas com o à vontade de quem bebeu um ou dois copos de vinho, deste branco fresco com que eu próprio já espevitei as papilas gustativas, em curta dose, é claro, e apenas como um pequeno introito ao grande espetáculo que se avizinha. E podeis ter a certeza que lá por dentro todo o bicho se espevita, tocam tambores, correrias, da boca ao ânus é um ver se te avias. Mas porque não fica ele caladinho?, penso eu para comigo, que disfrute do leito e não se ponha a alvitrar, e eu que até sou amigo, ainda lhe dou um ou dois toques, quando diz algum dislate, com os olhos lhe faço notar que o que vem da sua boca é tudo para contar. Mas, não, não se cala, e quanto mais o como mais ele se empolga. Meto-o por isso na boca, na língua é fofinho, e ele dócil, dócil, deixa-se todo enlambuzar com saliva antes de o mastigar. Ah, como se rebola, gostoso, quase dente não é preciso, basta apertá-lo ao céu da boca para se fazer deglutido. E aí ainda me diz mais uma ou duas, que eu não quero acreditar, que ser tão sensível, tão ingénuo, vivia com certeza no fundo do mar. Mas aqui vos digo meus amigos, que o melhor que ele tem é o coração, bom, bom, como aquele é bem difícil de encontrar. Como se afeiçoa a mim, nesta hora da refeição, todo ele delicadeza, mas a verdade é esta, e bem dura ela é, coração como aquele não quero eu tragar, fica com as tripas a um canto do prato, negras, escorridas e feias ao olhar. É destes segredos feito o mundo, vai a alma para a boca mas não nos agrada ao paladar. Estou seguro que já sabeis, pois tendes ar de estudar, que na boca se forma o bolo alimentar, essa bola saborosa em que um outro ser se deixa amassar. Pois é, é assim, pudéssemos nós ao nascer, como ao comprar a pastilha, poder escolher o sabor com que por cá devêramos andar. E dois juízos seriam necessários, gostaríamos de ser agradáveis e deliciosos, ou trombudos e amargos, qual das vidas preferiríamos para nos apresentar. Olha ali vai fulano, uma doçura de pessoa, e ali sicrano, que não é flor de se cheirar. Espero não vos desiludir, mas a verdade é esta, qualquer que seja o sabor com que vos inteirais alguém se vos irá papar. Mas a grande questão aqui fica, se se tem um coração tão bom, porque é que ele não gosta ao paladar?, esta é a lição, meus meninos, que para a vida deveis levar.
In 25 de abril sempre (2018)
Sem comentários:
Enviar um comentário