domingo, 1 de julho de 2018

Intestinto – Alvares

Há palavras que nos vêm à cabeça, palavras desacertadas, é certo, mas quando nos apercebermos da sua erradez já nos afeiçoámos tanto a elas que não conseguimos arranjar-lhes substitutas. Bem que procuramos no dicionário, para a frente e para trás, como quem vai swipando caras no tinder, para a direita e para a esquerda, mas a mesma insatisfação, e apenas digo isto para colocar um toquezinho de moral, o que também tem o seu charme, e ficará bem em qualquer perfil, como o sal na comida, nem muito, nem pouco, mas adiante, lemos-lhes o retrato, tintim por tintim, popas surfistas, fofas milus, bustos sorridentes, dentes, muitos dentes, a não ser que se prefira o estilo coolado, daqueles que deixam uma pessoa grudada, e aí vai-se bem com uns óculos escuros, à aviador, a posse que certamente tomará o primeiro robô verdadeiramente inteligente, como um adolescente apresentando a sua candidatura à idade adulta, que o primeiro direito inalienável do dono de sua própria carne, e osso, é levantar voo, muita coolado, para pente, tão a ver, as já supracitadas popas, mas confesso-vos que isto é tudo um pouco intestinto, pelo menos é o que pareceu ao Alvares após a conversa do Tavares e da sua máquina diabólica, quando ficou sem eira nem beira, a máquina bem lhe trazia algo à memória, mas não sabia bem o quê, era algo de intestinto. Sim, foi essa a palavra que se lhe fixou na cabeça, e não houve entrada no grande livro das palavras tabeladas que lhe enchesse as medidas, intestinto como o universo, pensou o Alvares. Uma máquina verdadeiramente orgíaca, capaz de reduzir tudo ao mínimo denominador comum, mas como?, interroga-se o Alvares. Do resultado está ele satisfeito, claro que não sem um certo sabor amargo, intestinto, se quisermos ser mais precisos, pois é possível olhar para o mecanismo de duas formas completamente distintas, a primeira é de ordem puramente prática, imediata e contendo os resultados satisfatórios atempadamente realçados pelo Tavares, ou mais prosaicamente, eh pá, deixa estar, não te preocupes, tudo o que o Romeu lá meter nós encarregamo-nos de transformar em merda, pois é, lembrou-se o Alvares, já ouvi uma anedota sobre isso, até acho que tinha uma moral, ora aí está, a outra ótica, a que atormenta o Alvares, o técnico de imagem, a de ordem teórica, é essa mania que a moral tem em se soberanizar, eh pá, é assim, pá, já diria, o Tavares, foi azar, não correu como esperávamos e foi tudo pelo cano abaixo, e antes tu do que eu, já sabes como é, itchmeneforimeselfe, mas regozija-te, pelo menos ficou provado que a máquina existe, é fenomenal, não é conjuntural, não andámos para aqui enganados, erámos nós ou eram eles, essa é que é essa, seria estúpido ignorar a realidade, e se existe tem apenas que ser estudada, essa é a missão do ser inteligente, deixarmo-nos de merdas, Alvares, estudar, estudar, perceber os seus mais recônditos mecanismos para depois nos alavancarmos a manobrar a besta, pôr-lhe as mãos em cima, e depois quem tem unhas tem unhas quem tem dentes tem dentes, já reparaste que no tinder é mais dentes e menos unhas, ridículo, meu caro Alvares.

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