domingo, 17 de junho de 2018

SIDA – Armindo

Consigo imaginar a anuência escorregadia com que morre um cristão, ou a insubmissão húmida com que morre um ateu, porque já por alguma vez me imaginei algum deles, mas como morre um maciço como o Armindo, uma estrutura óssea imponente, bem estufada de carnes trabalhadas, é para mim um mistério. Em particular se a morte não tem uma causa substantiva, de um peso semelhante, palpável, exterior, uma morte de que nos pudessem dizer, olha, o Armindo morreu, foi atropelado por um camião, não morreu logo, ainda esteve três dias em coma no hospital, perdeu o queixo quando foi de rastos pelo alcatrão, mas quando o visitei encontrei o seu corpo todo, tombado, é certo, mas era o Armindo, os braços moldados alinhados fora dos lençóis, com os dedo grossos onde costumava colocar os anéis. Agora, se o mal vem do interior, como uma térmita que corrói um edifício por dentro, pela calada, instalando-se lá, tornando-o oco, até que chega o momento em que não passa de uma majestosa figura de chocolate, uma figura de si mesmo, frágil ao contacto, onde facilmente se faz mossa, começando a ficar ridículo com as suas mazelas, vulnerável ao toque dos dedos, desfigurando-o de encontro ao vazio interior, ganhando um aspeto chupado, atrofiado, deixando de parecer o Armindo, então pergunto-me, o que é que está a acontecer ao Armindo, que merda de morte é esta, este retrocesso, este amesquinhamento, e por que não adopta ele uma posição, um ponto de vista em que se apoiar, por que não mostra a resignação de quem vai partir e junta os amigos à sua volta, imensos, como num funeral, ou então a revolta de quem não aceita e solta um brado aos céus, fodeste-me, mas para a próxima vais ver, uma blasfémia que está na base da ciência, mas nada, está tão calado como o bicho que o escava, mingua. Vou visitando-o ao longo dos dias, em cada um deles levo um Armindo e trago outro, menor, menos igual ao anterior, e aflige-me não se afligir. Por isso resolvo carregar um fardo que não é meu e monto uma tenda ao lado da sua cama, uma grande tenda de circo onde interiormente presencio as mais variadas palhaçadas, malabarismos, números com animais e fogo, tudo junto, números de que não consigo perceber o princípio nem o fim, em zapping, e enquanto o Armindo continua impávido, esvaziando-se lentamente como um boneco de borracha, eu, por dentro, entrego-me aos mais desmesurados assombramentos, cheios de risos aparvalhados, fedor de animais submissos que se oferecem ao gosto do chicote, belos trapezistas, cruzando o céu debaixo do toldo em encaracolados mortais, em sequência, e quando colocam solidamente os pés de regresso à base o público, constituído apenas por belos Adónis, solta uma exultação orgásmica cá em baixo, imagino também os palhaços enxovalhando-se, pregando-se partidas, rindo-se na cara uns dos outros, exageradas caras brancas e vermelhas, ninguém ri assim, pode dizer quem está junto da morte, mas eu, Humberto, é assim que estou junto à cama até que um dia olho e está vazia, o Armindo desapareceu, não existe, já não chupa um caralho.

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