domingo, 10 de junho de 2018

Riff – Gonçalo

Na primeira vez há sempre algum risco, mas quem não arrisca na primeira arrisca-se a não arriscar nunca, essa é que é essa. Como num concerto, no palco, com as caras cheias de euforia lá em baixo, braços no ar, estendidos, de dedos esticados, bocas estiradas em prolongados ais, e os músicos perfilados em silêncio. Começa-se, então, com um riff de guitarra, devagar, quase a medo, com tudo o mais ausente, talvez se sinta o agitar do coração do baterista a oxigenar por entre a catedral de pratos, pedais e tambores, com a pulsação a chegar às baquetas que pressentem o cheiro a adrenalina, enquanto o público se silencia de pescoço estendido como grandes lagartos alongando-se lentamente em direção a uma presa, acariciando com as línguas compridas o fio de notas que vai passando em fila indiana, bem comportadas, como um grupo de bailarinos cadenciando uma sequência de passos, e vão eles lambendo o ar à volta delas, uma a uma, sentindo-lhes a harmonia, um monstro com gostos gourmet, diria. Depois, repentinamente, desaba uma trovada tropical, com os pratos a relampejar exaltando de vibrações de luz o espaço, tornando-o descontínuo, fragmentário, pelo que os lagartos aproveitam para se atirar ao ar efetuando mirabolantes acrobacias nos pequenos cubos luminosos que julgam a eles ser destinados, talvez com reminiscências de teletransporte do Star Trek, cubos arrancados do chão pelo baixo, tornados translúcidos pelas guitarras, enquanto sobre o palco o vocalista pronuncia uma ou duas ininteligíveis palavras que os lagartos repetem entrelaçando as línguas e girando uns sobre os outros, aos dois e aos três de cada vez, como multi-pontiagudos dardos. E é o Gonçalo que está lá em cima. Sim o Gonçalo Aires, com a cabeça de cabelos desgrenhados, pretos, tronco nu, o peito escuro mas quase totalmente rapado, não fosse por alguns pelos apenas, por alturas dos mamilos, ponteando-os, pequenos repuxos de um jardim barroco rodeando um minúsculo tanque onde habita uma franzina planta aquática, como o Gonçalo ele todo, ossos jovens sobre carne jovem e pele sedosa, sustendo-se com as mãos sobre os pulsos, com a Ivone por baixo, com a garganta em v, atirada para cima, trazendo um arrasto de cabelos, como o véu de uma noiva, rendilhado, deixando uma mancha de clara de ovo, estrelado, por onde irrompem os olhos de Ivone, a boca, a língua, esticada, a cheirar o ar em volta, devagar Gonçalo, consegue dizer sem esconder a língua, projeta mais o pescoço, atirando os olhos lá para trás, onde as mão empurram a parede, provocando uma vibração nos seios que teima em não desaparecer, os mamilos nitidamente maiores que os de Gonçalo, provavelmente com outras ambições, se desmedidas apenas o tempo o dirá, rápido agora Gonçalo, dos cabelos desengancham-se línguas dardejantes, projetando-se em direção às paredes, ricocheteando, entrelaçando-se e deslaçando-se extenuadas no chão, as dos cabelos do Gonçalo encaracoladas, saem como bumerangues procurando trazer de volta as de Ivone, dobradas, rendidas, agora um riff apenas, Gonçalo.

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