sábado, 2 de junho de 2018

Oblívio – Zé

Um sistema de posições meticulosamente desenhadas num contínuo, onde a variação de um milímetro conta, numa prova irrefutável que entre quaisquer dois pontos existe uma infinidade de outros, prontos para a aproximação, prontos para revelarem o abismo entre eles, sugerirem coisas incontáveis, inarráveis em poucas palavras, por mais que nos precipitemos sobre elas com frases sintaticamente corretas, que a semântica não vai lá com gramáticas, frases maravilhosamente blindadas, das quais pensamos, não falta ali nada, nem um de, nem um a, nem um o, nem um da, nem mesmo um e, nada, como os dentes cerrados que rasgam o fio dental, como uma criança se recusa a obedecer, se fecha sobre si própria, protegendo-se, crescendo, entrando na fase em que se cimentam as paredes, se tapam as rachas entre os tijolos, se coloca maquilhagem sobre a cara, negando a existência do umbigo, essa reentrância que se retorce sobre si mesma, em espiral, por onde enfiamos a língua, à procura de um ponto, de um choque original, e vamos entretanto acomodando os olhos ao gigantesco pequeno, com o nariz para ali enfiado, como a câmara de um drone planando sobre as crateras formadas pelos poros, num contínuo, que aqui ora se estende, ora encolhe, longas planuras alvas onde andamos perdidos, sem um ponto de referência, para frente e para trás, como autistas no desempenho de uma tarefa, estendendo a língua idiota, lambendo, molhando, balbuciando com o infinito, um mantra, dizem os mais letrados justificando os movimentos repetitivos da nuca, não interessa, um muro de lamentações sobre o ventre liso, bamboleante como um rede acrobática, para onde atiramos o rosto, inspirando inspirados, pois para além dos olhos só o nariz está desperto, aprecia o trabalho da língua, não a traidora que cospe belas palavras, as que nos trouxeram aqui, a esta cama, não, aquela que humedece, que faz exaltar os odores, e vamos sentindo todo o seu espetro enquanto a cabeça vai e vem, e o nariz sempre atento não quer perder pitada, que agora até já os olhos se turvam, é assim em todas as celebrações, chamam-lhe o estado de transe, atinge-se uma forma de amnésia, esquecem-se as posição há tanto tempo desenhadas, fruto de num trabalho persistente, minucioso, como uma estrutura algébrica, com um fecho qualquer, feito do saber de séculos acumulados, mas é esse o culminar de toda a obra, quando se incrusta no leitor, perde-se a necessidade do seu suporte em papel, entra pelos corpos a dentro e já podemos mandar queimar os livros, não interessa, e depois, claro, a penetração, um ritual próprio, capaz das encenações mais grandiosas, às vezes, outras, parece mais um sussurro, um pedido de desculpa, implorado, entre o anteceder de um grande segredo e a revelação mais banal, despertando uma curiosidade puramente sintática, facial, prega-se no cérebro, lá bem atrás, onde as máquinas de inferência não chegam, salvaguardada, protegida, junto a outras, por categorizar, e coisa prossegue, como costuma ser, e quando o Zé quer fazer acompanhar o transvasamento de um nome, esquece-se de qual é, oblívio.

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