sábado, 5 de maio de 2018

Maio, maduro maio – Ivone

A ilusão da multidão. O delírio de um corpo ungido de uma vontade, membro a membro, desfilando em uníssono, caminhando, solavancando a uma ordem maior, prescrita lá mais à frente, impondo uma disciplina imaginada aos seguintes, que a aceitam tão pura como sendo a primeira. A ilusão de corpos no corpo da multidão. As caramboladas com efeitos de fantasia, gente que na marcha ricocheta à frente e a atrás, vai até às grandes paredes rendilhadas de janelas que comprimem o movimento e regressam para mais um ressalto, porque todos se queixam da força da corrente e ninguém menciona as margens que a oprimem. A ilusão dos corpos próprios. Acondicionados neste mês de maio, pendurados de árvores que vergam ao peso dos frutos maduros, num desfilar de odores pairando na brisa indecisa, aventurando-se aqui e ali sem nunca abandonar o conforto da copa, porque todos se deleitam com os atrevimentos que desencadeiam, mas ninguém se lembra sofrimento que é manter os odores em forma. A ilusão do sofrimento dos frutos maduros. No auge da existência, mas já antevendo a decadências das formas, procuram ganhar tempo e por isso afiliam-se a um ritual vodu, pintam a cara de branco, beauty sleep, desculpam-se com um tom quase doce, mas procedem ao esvair sistemático do sangue na privacidade da relação com o próprio corpo, condicionando a decomposição dos odores, recuperando alguma frescura, professando uma amnésia calculada para voltar a atingir uma plenitude absorta. A ilusão da frescura contínua. Como numa grande superfície, onde a fruta de agora é exatamente igual à de ontem, e já se sabe com o que contar amanhã, e assim meses a fio, a mesma textura ao tato, o mesmo escorrer pelos dentes à mordida, até que se fartem por aborrecimento, pois negar o tempo tem limites, e ao fim de algum tempo desconfia-se. A ilusão da desconfiança. Como uma pedra no sapato que não magoa, incomoda, e que já descalçaram várias vezes, reviraram e nada encontraram, voltando a calçar com uma leve sensação de incompetência, pois estava lá, de certeza que é ela que se rebola, escapa à vista, inventou-se para se manifestar quando nela não se pensa. A ilusão da incompetência. Das tentativas repetidas, do calcorrear dos mesmos caminhos, profetizando logo no início ao outro o que se vai passar, num momento de fraqueza, concede-se, mas que não deixa de ser um momento de vaidade, pois jogam ao ioió entre o esquecimento e a consciência, ora vai, ora vem, movido à energia da juventude produzida com um ligeiro toque de pulso, quer no ir, quer no vir, e é assim que a Ivone encontrou o Gonçalo Aires naquele mar de gente, quando a força da vaga levava num único sentido, um turbilhão, disse-se nalguns jornais da época, aqueles que ainda insistiam em colocar na primeira página os crimes do capitalismo, mas convenhamos que era já uma réplica da onda, mas ainda assim iam carambolando com os calores de maio, e a Ivone sente o frio dos cabelos espessos de Gonçalo entre os dedos, sim, aí, Gonçalo, e raiava o sol já no sul.

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