sábado, 12 de maio de 2018

Barba e cabelo – Catarina

Este é um assunto delicado, pelo que nada mais me resta do que me despojar da roupa e assim, todo nu, dizer um poema. Era bom, era. Até pareceria então que dava sentido às coisas, com a barriga ligeiramente para fora e tudo o demais pendente, e que o assunto não tinha sido um arremedo momentâneo, incapaz de se repetir a não ser por outra imitação, tão imperfeita como a primeira, e que mesmo que elas se repetissem com frequência não caraterizariam o sujeito, a não ser pela passagem dos anos pelo corpo, os riscos dos pelos pelo puxar da roupa, que nestas situações de improviso saem por cima, a braços com uma rendição, enredadas, por desabotoar, como se impelidas pela urgência do sexo, e afinal, tão só um poema, meia dúzia de palavras cujo único propósito é virem umas a seguir às outras, em carreirinho, disciplinadas, cada uma como anúncio de previsibilidade da seguinte, que o parceiro se não o diz pensa, prometeste-me tempestade e afinal é tudo só acalmia, enquanto ali se está escorado, imobilizado com o que se tem para dizer, como se possuído por dentro. São diabruras toleradas na juventude, feita de peles escorreitas, mas a idade aconselha à cautela e esta leva à decência, e sendo assim, porquê? Pensais que a vida de criar personagens é fácil, que é um regalo, somos donos e senhores, sentamo-nos e lá vamos nós colorindo-os como uma criança a um desenho, ou uma menina veste e reveste uma boneca. Não. Sonhamos, abrimos os olhos e dói-nos diferença. Tinha depositado tanto na Catarina, tinha-a tão bem guardada que pouco dela vos tinha ainda contado. Para vós quase uma figurante, como se não existisse, um mero enquadramento do Romeu. Para mim, uma santa, se bem me entendeis, que a sujeitei às mais difíceis provas, ao vómito do marido, às suas infidelidades, à Amália, à Madalena, à Sílvia, à Splash!, sim, à Splash!, que neste mundo só o mundano dói. E em boa verdade vos digo que nunca me dececionei, muito menos desconfiei, mas andava distraído. As personagens no início não são nada, depois vão ganhando espessura. Errei. Não devia ter colocado aquelas três mulheres na dilatação da pupila de Romeu, quando era Catarina que o amparava. Ninguém gosta de se saber desprezado. É esta uma pena das narrativas, por muito que amemos um personagem, ou lhe damos provas no texto, ou essa afeição não serve de nada, quanto livro anda por aí a apodrecer em prateleiras cheios de homens e mulheres de amor descuidado, não vos admireis, portanto, que estejam desterrados para esses cantos de esquecimento. Por isso, com o mal feito, e para tentar salvar esta obra, só me resta tirar a roupa e dizer o meu poema. No dia seguinte conheceu Catarina um homem. Se conhecer se aplica a uma curta troca de palavras. Casual no início. Intencional depois. Foi das circunstâncias que pouco depois estava à porta do seu apartamento. Uma vez lá dentro, quando a porta se fecha sobre as suas costas, Catarina disse com uma voz que não lhe reconheço, e, por favor, olhai para o meu corpo despojado, há certas mulheres que gostam de fazer de putas, mas eu não.

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