domingo, 1 de abril de 2018

Uma História bem Contada – Zalo

Cada qual com o seu papel, cada qual no seu papel. Melhor não consigo descrever a função do ator. Quantas obras fenomenais são assassinadas pelas fracas interpretações. E que se lhes pode dizer a não ser um prosaico, estava tudo tão bem preparado e tu fizeste merda. Assim não dá. Dá deus nozes a quem não tem dentes, diz-se recorrendo a figuras de estilo, à procura de uma outra dignidade, levantando-se do chão, rebuscando entre as deixas uma que se enquadre, que mascare a visão das pérolas espalhando-se pelo chão, que lindas que elas eram antes de entrarem na tua boca, morcão. Mas também o contrário é frequente, quantas vezes a genialidade irrompe do irrisório, do banal. São assim os grandes intérpretes, enfrentam gigantes cavalgando ridicularias, mal se lhes nota o cavalo branco entre a pernas, de minúsculo que ele é, e ainda assim atiram-se sem medo ao adversário, apertando os membros, aos saltos, para o verbo não ficar para trás, não porque precisem, mas porque um ator é um profissional e por isso diz aquilo para que foi pago, só que fá-lo com um tal arcaboiço, que os outros tremem só de o pressentir abrir a boca, o anteceder aquele vozeirão que vem das entranhas e enche uma plateia de arrepios, como se tivessem repentinamente aberto as portas de par em par. Palavras fracas e vazias que nos atravessam com o arremesso de um tornado. Levam tudo à volta. São uma força da natureza. Sim, teatro é corpo com texto. No caso do Zalo o texto estava à dimensão ao corpo. Curto e telegráfico. Sabe-se que passa uma mensagem naquele fio pendurado entre os postes de madeira, o difícil é saber quando. Deste dilema já padecia o Aires pai, que se sentava à volta das ovelhas de olhos no cabo, absorto, como que procurando adivinhar o que por ali iria e quando, da notícia da morte da ti Josefa para o filho, teve a certeza que a viu sair do terceiro poste depois do cabeço do prior e chegar ao poste seguinte, para os lados do cabanal, onde esteve aí um bom minuto a tomar fôlego, que a viagem até ao Brasil não é para brincadeiras, teve o descuido de confidenciar a alguém, mas logo foi desenganado, que não, que aquilo vai mais rápido, talvez não chegue à velocidade de automóvel do Sr. Marquês, mas ela deve ser mais coisa menos coisa. É isto, mais coisa menos coisa, disse-lhe a Joaninha, não tenhas pressa, uma palavra de cada vez, vai-te distraindo, olhando em volta, para a secretária, para a lâmpada pendurada do teto, fala da Sra. Marquesa, diz só, a Sra. Marquesa, que ele fique a saber que é da Sra. Marquesa, depois para, tira os olhos do Hilário, olha para o lado, dá-lhe tempo, ele vai querer saber mais, faz-te esquecido, como se de repente não soubesses porque ali estás, que te quisesses ir embora, basta um ligeiro arrastar de um pé atrás para ele te perguntar por mais, deixa então cair um outro nome, diz-lhe, por causa do Pinote, acho, não te esqueças do acho, Zalo, e olha mais uma vez para o teto, mas agora não te mexas, só a cabeça, imobiliza o teu corpo como para lhe impedir a passagem, e quando sentires que respirou fundo, diz-lhe, quer falar consigo junto ao casebre, e então roda os ombros e deixa-o sair.

Sem comentários:

Enviar um comentário