quarta-feira, 25 de abril de 2018

Taxionomia – Joaninha

Debaixo da conversa arrastada, do lento fluir de palavras, o Mouro mantém os olhos semicerrados com pupilas periscópicas. Não se encontra na terra bicho mais camuflado. Acha-se graça ao Mouro, estar-se com ele é só rir, uma grande pândega, e enquanto nos vamos deixando entreter pelos seus adornos aquelas duas pequenas bolas acobertadas por pálpebras papudas vão-nos tirando as medidas de alto a baixo. O Mouro até já inventou uma taxionomia com a qual classifica cada uma e todas as coisas que o cercam. O seu sistema é baseado num conjunto limitado de conceitos, e formulado a partir de uma pergunta bem básica, como é que cada uma das coisas do mundo vê o Mouro? Dirão, o Mouro interpreta o mundo à sua medida! Mas quem não o interpreta à sua? Dirão, o Mouro é autocentrado! Mas quem se arrisca a levar o pensamento aquém do centro de massa do seu corpo? Podem mesmo procurar ter uma argumentação mais impessoal e alegar que a abordagem epistemológica do Mouro não é a mais correta, mas então sugiro que questionem o Mouro acerca disso. Verão que ele logo fletirá o tronco com a cabeça para a frente, ou então colocar-se-á numa posição ligeiramente simétrica, dando relevo à barriga com a cabeça lá atrás, como um ferro de engomar sobre uma tábua de passar a ferro, e vós que sois apressados na utilização da razão direis, vede como o Mouro não é coerente na aplicação do seu modelo interpretativo do conhecimento, se está mais junto a uma parede estende-se, mas se sentado numa cadeira verga-se, percebendo-se que a sua análise é puramente contingencial e carece de rigor. Tende calma, para perceberdes o que está a ocorrer basta que imagineis o periscópio lá dentro a girar como num submarino, com um homem dando pequenos passinhos enquanto roda, roda a 360 graus. Ledes-me agora desconfiados, e dizeis, o possuidor de um tão sofisticado mecanismo de observação não pode ser um caramelo. Bom, sentis agora uma sensação incómoda? Como se alguém vos estivesse a observar? Não vos quero alarmar, mas neste momento o Mouro tem aqueles dois olhinhos húmidos e minúsculos bem focados em vós. Ah, o Mouro sabe tudo, exclamais espantados. Não sabe tudo, sabe tudo o que pode saber um caramelo. Uff, exalais mais descansados. Lá estais vós de novo descendo e subindo na vossa taxionomia. Assim não tendes descanso. Quem não se deixa levar nestas ansiedades é a Joaninha, que no dia anterior aos acontecimentos que relato, foi ter com ele. Foi recebida, com as habituais tramitações sonoras que encobrem o ruído da montagem da maquinaria. O Mouro perguntou-lhe pela mãe e se tinha notícias do pai, mas a Joaninha foi direta ao assunto, então a Sra. Marquesa natruca, disse-lhe, tirando partido da inexistência de tal palavra para a poder pronunciar sem interdições de idade nem ter de temer do seu significado. A dimensão da resposta do Mouro começou por se revelar com um revirar de olhos, que por duas ou três vezes percorreram toda a linha do horizonte, para finalmente dizer sem arrasto nem entorpecimento, já viu menina, tudo isto por causa de um porco.

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