domingo, 22 de abril de 2018

Olímpia – Zé

Ai que lindo menino. Esta afirmação seguida da entrega de um doce, um rebuçado ou um caramelo, revelado após se levantar a tampa de um recipiente de loiça, opaco por natureza, como sinal de pudor, colocado sobre um pequeno móvel à entrada de casa, numa altura em que brindar com açúcar ainda não trazia nenhum malefício, mas era mesmo um elemento indispensável nas disposições protocolares de bem receber crianças, por muito inocente que pareça, não pode ser tratado como algo normal, até porque Olímpia já andava há muito tempo de olho no miúdo. O miúdo era o Zé, e, diga-se de passagem, que se a sua predisposição para estes mimos nunca tinha sido grande, ia ficando ainda mais diminuta conforme ganhava vontade própria. Mas a Olímpia engraçava com ele, e o que é que havia de fazer. Era vítima de duas situações que não controlava e ambas com origem no seu matrimónio. Um matrimónio que se prolongava sem dar fruto. Um matrimónio que lhe trouxe a ascensão social que a colocou numa terra de ninguém, entre os senhores e os camponeses, não sendo convidada a privar com os primeiros, nem querendo comprometer a posição recém-adquirida dando-se ao convívio dos segundos. E as funções do Hilário não ajudavam, se o davam ao respeito também mantinham as pessoas à distância. Apenas os declarados adeptos do regime não se limitavam a cumprimentar de longe, e ainda assim eram sempre rápidos e circunspetos, uma cautela um pouco contraditória acerca de uma pessoa que tinha a fama de saber tudo. Até sabe o que se fala ao telefone, diziam, como cúmulo da feitiçaria. Tudo somado, Olímpia aborrecia-se em casa. Por isso foi com alegria que recebeu a visita inesperada do netinho do Sr. Dr. José Galvão, um membro da oposição, como já o marido lhe tinha diversas vezes dito, mas Olímpia dividia o mundo por outras linhas, e aquela era gente que se dava com os Marqueses, e, ademais, a esposa do Dr. Galvão sempre tinha sido simpatiquíssima para ela, dela não se podia queixar, não como da Marquesa, que de certeza achava que era mais que os outros. A contragosto deu o Zé as voltas ao rebuçado. Bem espinhosa era esta missão que a Joaninha lhe tinha confiado. Então, como está a sua avozinha, perguntou-lhe a Olímpia, uma vez que o Zé não havia meio de desembuchar. Está bem obrigada, ontem estivemos em casa dos Srs. Marqueses. Logo a Olímpia se fez toda ouvidos. Comentou-se a morte do Sr. Capitão Simões, disse, puxando o rebuçado para um canto ao fundo da boca. O meu avô disse que o caso não estava bem esclarecido, mas o Dr. Macedo replicou que se deu como provado que tinha sido o Pinote. O meu avô insistiu que não era possível, pois ele foi agredido pelo Mouco, ainda antes do capitão Simões morrer, e não quando tentava escapar da prisão, matando o capitão Simões durante a fuga, como alegou o Sr. Hilário. A Sra. Marquesa logo juntou que de certeza que o Sr. Hilário deveria saber mais alguma coisa. Foi quando a Olímpia o interrompeu. Ela disse isso, exclamou, foi ela que escreveu ao Hilário dizendo que o Pinote estava escondido no casebre.

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