quarta-feira, 25 de abril de 2018

Mistério – Avô Galvão

Pois é, tudo ocorreu de acordo com o planeado, era agora claro que o Pinote não tinha morto o capitão Simões, até se percebia bem o que tinha acontecido. O Hilário convenceu o Mouro a espalhar o boato acerca da Sra. Marquesa, dizendo que o tinha ouvido da boca do Pinote, em troca do esquecimento do caso do porco, pelo que esta, num momento de fraqueza emocional sustentada por alguma lamechice poética, acaba por escrever a carta de denúncia do paradeiro do Pinote ao Hilário, o qual o captura junto ao casebre, e desgostoso por este não se ter entregue com a doçura de que achava ser merecedora uma pessoa na sua posição, estava apenas no cumprimento do seu dever, e tendo até recebido um pequeno mimo que feriu mais o seu orgulho que o seu corpo, como acontece a todos os que se acham possuidores da razão, assim que o enjaulou mandou chamar o Mouco que o deixou num estado para além do esperado, pois o rancor que te guarda um homem a quem retires uma parte do corpo não é diretamente proporcional à dimensão da porção retirada, pelo que Hilário teve que adiar a notícia da captura, dado não ser da boa ética profissional entregar o peixe em mau estado sem uma razão plausível. Logo, disse o Zé ao avô, tal como estava, o Pinote não tinha condições de ter morto o capitão Simões e muito menos foi agredido na sequência da sua fuga, que nunca terá ocorrido, como alegou o Sr. Hilário, pelo que o mistério está esclarecido, o Pinote não matou o Sr. Capitão Simões. O avô olhou demoradamente o neto, antes de decidir o que responder. Sabes, resolveu-se finalmente, o Sr. Hilário veio falar comigo, disse-me que estiveste em casa dele a falar com a Olímpia, proibiu-te de lá voltares. Também já não é necessário, o avô nem sabe o esforço com que lá fui. E também me disse que o Mouco desapareceu, não sabem dele, pois não, interrompeu o Zé, o Armindo tratou disso, ele também não fazia falta nenhuma. O avô decide então ir direto ao assunto. O que achas que vai acontecer agora que resolveste o mistério, Zé, pergunta-lhe o avô. Então, agora temos que contar tudo ao Sr. Dr. Macedo, e ele irá dar a ordem para libertarem o Pinote e prenderem o Hilário, que mentiu à justiça, sob juramento, não foi avô, foi sob juramento que ele mentiu. Suponho que sim, concede o avô, embora ele possa ser um homem que fez vários juramentos. Vários juramentos, avô, como é isso possível? É possível, sim, mas isso pouco interessa agora. Quer dizer que não vão libertar o Pinote, avô? Sabes Zé, sinto muito ter de te dizer isto, mas já estás a ficar um homem e tens que saber que onde vocês viram um mistério não há mistério nenhum, o Zé olha o avô incrédulo, todos os que querem saber, sabem que o Pinote não matou o capitão Simões, mas como sabem, pergunta-lhe o Zé, o Dr. Macedo sabe, interpõe o Zé com mais uma questão antes de deixar o avô responder, não há mistério, repete o avô, lá em cima decidiram que o Pinote deveria ser responsável pela morte do capitão Simões, lá em cima, avô, sim em Lisboa, na PIDE, o Zé olha sem palavras, o que é necessário é um outro governo, uma outra política, diz-lhe o avô Galvão.

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